Uma série de estatísticas e pesquisas, divulgadas neste início de agosto, tendem a nos fazer crer que o Brasil teria deixado para trás a recessão e a própria crise econômica. Análise um pouco mais profunda dos números divulgados nos permite, todavia, acreditar que, por enquanto, chegamos ao fundo do poço e começamos a caminhar, lentamente, para dele sair. No entanto, os efeitos colaterais das medidas adotadas para enfrentar a crise ainda estão por vir.
E isso não será apenas no Brasil! Em primeiro lugar, vamos aos números atuais. Se é verdade que a produção industrial brasileira continua positiva, é verdade igualmente que a mesma caiu de 2,2% de crescimento em janeiro (após menos 12,6% em dezembro passado) para apenas 0,2% em junho. Na comparação semestral, a queda da atividade industrial brasileira, no primeiro semestre de 2009, foi de 13,4% sobre igual semestre de 2008.
O pior resultado desde 1975! No Rio Grande do Sul, a queda semestral é de 14,3% na mesma rubrica, se conformando no pior resultado histórico para o semestre. Em termos trimestrais, a recuperação de 3,4% no segundo trimestre desse ano é ainda pequena, pois no último trimestre do ano passado a mesma tinha recuado 9,5%, enquanto no primeiro trimestre desse ano o recuo chegou a 7,7%.
Nessas condições, o emprego está longe de ser recuperado e o PIB continua potencialmente negativo. Nesse sentido, alguns órgãos oficiais (IPEA) voltam a revisar para baixo o crescimento de nossa economia em 2009, aceitando agora o fato de que o mesmo possa ficar em apenas 0,5%.
É possível que estejamos saindo da recessão, porém, como o previsto, ficaremos muito longe dos 5,1% de PIB obtidos em 2008 ou dos 5,4% conquistados em 2007.
Analistas privados indicam que o PIB anual deva ser ainda negativo em 0,38%.
Saímos da recessão (?) (II)
Pelo sim ou pelo não, o fato é que alguns indicadores mensais melhoraram, o que é positivo, porém, ainda estão longe de permitir que julguemos a crise como sendo passado. Muito terá que ser feito para que 2010 seja realmente o ano da recuperação!
Em segundo lugar, como o setor externo não retoma, nosso comércio mundial é mais de 20% menor do que o registrado em 2008. Ou seja, o Brasil consegue melhor sobreviver à crise graças ao seu mercado interno, cuja demanda reprimida vem sendo estimulada por medidas públicas importantes, como redução de impostos, juros e aumento do crédito público.
Mas isso tem limites e precisamos urgentemente que a economia mundial igualmente saia da crise, o que será mais demorado. Um dos limites está no aumento do endividamento e inadimplência do cidadão brasileiro.
O outro está no esgotamento do Estado em continuar aplicando a receita de financiador da retomada. Em termos macroeconômicos, esse é o efeito colateral mais preocupante. Isso porque o governo se obrigou a gastar muitos recursos extras, sem realizar um controle adequado dos gastos.
Assim, o déficit público do primeiro semestre desse ano foi o pior desde 2002. Com isso, o superávit primário chega somente a 2,44% do PIB nos primeiros seis meses do ano. Longe dos 5,86% obtidos no mesmo período do ano passado e distante dos 3,8% estabelecidos como meta oficial para 2009.
Mesmo com o governo tentando relativizar o problema, ele é sério. Se os gastos não forem controlados (e assusta as constantes contratações diante de um quadro de pessoal já inchado), será nos investimentos que teremos cortes. Algo, aliás, já perceptível em muitos setores.
Assim, ao olharmos para trás percebemos que o país melhorou, porém, quando olhamos para frente vemos que há muito ainda por fazer.