Enquanto a economia nacional apresenta alguns números importantes, indicando uma melhoria em relação ao pior da crise, outros dados nos chegam e confirmam que novas dificuldades despontam no futuro. Como todos sabem, os Estados salvaram a economia de um recuo ainda maior, a partir do estouro da crise mundial, e no Brasil não foi diferente.
Aliás, a última reunião do G20, em Pittisburg (EUA), no final de setembro, reforçou a posição de que os Estados devem continuar apoiando a economia, pois a mesma não consegue ainda caminhar pelas próprias pernas. Todavia, como já alertamos em outras oportunidades, um dos efeitos colaterais de tal remédio é o custo para o setor público. E os recentes números brasileiros confirmam que tal efeito já está ocorrendo.
Nos últimos 12 meses (setembro/08 a agosto/09) o país atingiu o pior superávit primário desde 2001. Assim, a evolução da dívida pública em relação ao PIB deverá atingir, em projeção, a 43,3% nesse ano, contra 38,8% no ano passado. Embora já tenhamos alcançado 53,5% do PIB em 2003, não há dúvida de que o salto deste ano é muito grande e deve preocupar.
É o resultado do esforço de salvamento que o Estado fez em relação à crise, porém, também é o resultado da má gestão da chamada “coisa pública”. Isso porque, nos oito primeiros meses deste ano, enquanto a arrecadação caiu 0,7% os gastos com pessoal aumentaram 16% e continuam aumentando.
Ora, quem paga tal conta é a nação brasileira e isso não pode continuar sob pena de comprometer o esforço de crescimento futuro, sem falar que impede qualquer possibilidade de desenvolvimento sustentável.
Real continua se sobrevalorizando
A economia brasileira continua recebendo dólares em profusão, fato que leva a uma constante sobrevalorização do Real, a ponto da moeda nacional ter trabalhado, em alguns momentos desta semana, a R$ 1,77. Muito analistas da área cambial já cogitam um final de ano com a nossa moeda valendo R$ 1,60.
Esse quadro reflete alguns aspectos que merecem atenção. Em primeiro lugar, o sistema financeiro mundial demonstra que nada aprendeu com a crise e continua especulando fortemente onde é possível. Boa parte da entrada de dólares no Brasil se dá pela motivação especulativa e não produtiva.
A ponto da Bovespa atingir, até o dia 1º de outubro, um ganho acumulado em 2009 de 63,8% enquanto as empresas nela cotadas, na economia real, gerarão um PIB anual de algo entre 0% e 1% na melhor das hipóteses. Sem falar que junto às nações desenvolvidas as bolsas registram ganhos entre 13% e 35% nesse ano.
Ora, isso comprova que o sistema voltou a ficar especulativo e uma correção se impõe para as próximas semanas, além de indicar que se torna urgente acelerar a aplicação de mecanismos de regulação do sistema financeiro mundial, conforme o destacado pelo G20.
Em segundo lugar, um Real sobrevalorizado desta maneira, na medida em que a paridade de poder de compra com base em janeiro de 1999 indica que o valor “normal”, para o momento, deveria ser de R$ 2,16, retira competitividade de nossos produtos de exportação. Isso vem agravar a saída da crise já que o próprio mercado internacional reduziu em quase 30% as compras de produtos brasileiros (em valor).
O resultado bastante baixo da balança comercial nacional em setembro comprova isso. Não surpreende, portanto, que o governo esteja estudando medidas para apoiar o setor exportador, já que a sobrevalorização de hoje se insere num quadro econômico mundial muito mais difícil do que o encontrado em meados de 2008, quando o Real chegou a bater em R$ 1,56 no final de julho.
Balança comercial ruim em setembro
Mesmo registrando um superávit de US$ 1,33 bilhão em setembro, o resultado mensal é o pior desde janeiro passado, quando tivemos um saldo negativo, comprovando que a crise mundial e a sobrevalorização do Real estão realizando estragos importantes junto aos nossos exportadores.
O superávit de setembro ficou 51,7% abaixo do registrado no mesmo mês de 2008 e 56,5% abaixo do resultado positivo de agosto de 2009.
Esse quadro demonstra que ainda há muito que vencer no contexto da crise econômico-financeira internacional e que, se não fosse o mercado interno brasileiro e a ajuda financeira do Estado, a economia estaria ainda pior (lembramos que o FMI prevê um crescimento negativo para o Brasil nesse ano de 0,7% enquanto no país já se espera um crescimento positivo entre 0% e 1%, contra 5,1% de aumento no PIB alcançado em 2008 e 5,4% em 2007).
Trigo de qualidade poderá ter preço
O quadro de preços para o trigo de qualidade começa a mudar. Diante da forte quebra que se desenha na produção tritícola nacional (o Paraná já contabiliza 21% de perdas, sendo que em sua região norte as mesmas chegam a 34%, enquanto no Rio Grande do Sul a situação não é das melhores e o clima, infelizmente, ainda pode piorar até a colheita) o mercado já projeta preços mais interessantes para o trigo de qualidade superior.
Embora seja difícil dizer que nível de preço será alcançado, já que a importação da América do Norte continua favorecida pelo câmbio e pela forte queda nos preços mundiais, é quase consenso que a colheita nacional, embora ainda estimada entre 4 e 5 milhões de toneladas, trará em sua maior parte um produto de baixa qualidade.
No Paraná o volume final está revisado para apenas 2,77 milhões de toneladas, enquanto para o Brasil, no momento, já se projeta 1,2 milhão de toneladas de triguilho, havendo ainda mais de 65% da área para ser colhida no Paraná e toda a área catarinense e gaúcha. Lembramos também que a produção argentina será de apenas 7,4 milhões de toneladas, com disponibilidade de exportação, para 2010, de tão somente 1,5 milhão de toneladas, diante de uma necessidade de compras externas, pelo Brasil, ao redor de 5 a 6 milhões de toneladas.