A colheita brasileira está terminando e o número final gira ao redor de 50,3 milhões de toneladas, um novo recorde. Na Argentina igualmente a produção foi recorde, devendo atingir a 35 milhões de toneladas. Em seu conjunto, pela primeira vez na sua história, a América do Sul superou a produção dos EUA. A última safra estadunidense, colhida em novembro passado, chegou a 74,3 milhões de toneladas enquanto a produção sul-americana chega, neste ano, a cerca de 91 milhões de toneladas. Com isto, a produção mundial de soja pulou para cerca de 194 milhões de toneladas neste ano 2002/03.
Diante de tamanha oferta e com uma demanda firme, porém, menos intensa, o mercado naturalmente tende a apontar para preços menores. E os componentes estiveram quase todos reunidos para tanto: um câmbio em claro recuo, com o dólar batendo em R$ 2,86 em meados de maio/03, contra quase R$ 4,00 em alguns momentos do segundo semestre passado; forte oferta via uma colheita excepcional; e demanda sem sobressaltos, atrapalhada pela situação instável da China, em função da pneumonia asiática. Além disso, inicialmente as cotações em Chicago não davam mostras de novas altas. Com isso, a pressão natural de vendas por parte dos produtores provocou um recuo nos preços pagos no Rio Grande do Sul. A média no balcão, de R$ 32,00/saco, nesta metade de maio/03, está 28,9% abaixo do registrado em outubro e dezembro passados, quando o saco no balcão girou, na média, ao redor de R$ 45,00 e até mais em algumas localidades. No entanto, se compararmos os atuais preços à média praticada no ano passado, em meados de maio, veremos que os preços agora estão muito melhores. Os mesmos, na oportunidade, chegavam a R$ 22,15/saco. Isto representa um acréscimo de 44,5% num ano, ou seja, muito acima da inflação oficial.
No entanto, os atuais preços poderiam estar ainda muito abaixo do que vêm sendo praticados. Na verdade, as cotações em Chicago, puxadas por movimentos especulativos, alimentados pela perspectiva de uma redução na área plantada com soja nos EUA (a primeira intenção de plantio acusou um recuo de 0,8% na área); pelos estoques finais bastante reduzidos neste momento nos EUA; e pela inescapável possibilidade de frustrações climáticas, levaram as cotações da soja, naquela Bolsa, aos seus melhores níveis destes últimos cinco anos. A tal ponto que a média de abril ficou em US$ 6,03/bushel contra US$ 5,72 em março/03, US$ 4,66 em abril/02 e US$ 5,12 na média de 2002. Além disso, em meados de maio/03 as cotações já haviam subido para níveis próximos a US$ 6,50/bushel, ultrapassando rapidamente a média histórica (últimos 30 anos) que é de US$ 6,18/bushel. Assim, este comportamento de Chicago está segurando os preços ao redor de R$ 32,00/saco no balcão gaúcho. Caso Chicago tivesse permanecido nos níveis anteriores a estas últimas altas (ao redor de US$ 5,70/bushel), os preços aos produtores rurais teriam recuado abaixo de R$ 30,00/saco como se projetava inicialmente. Sobretudo porque, neste final de colheita, as empresas compradoras ainda estão cobrando margens muito reduzidas, numa clara “guerra” comercial pela soja. Isto igualmente auxiliou na manutenção dos atuais preços.
Dito isto, a tendência indica preços mais firmes para o restante do ano. Especialmente porque o dólar deve se recuperar um pouco, com o câmbio voltando a patamares próximos a R$ 3,50 no final de 2003. A forte inflação prevista no Brasil para este ano (ao redor de 12%) deverá obrigar a este ajuste além de importantes compromissos financeiros que o Estado possui com o exterior. Em Chicago não recuando em demasia, relativamente aos atuais níveis (é possível que até suba mais, bastando para isto se confirmar uma frustração climática nos EUA), os preços gaúchos no balcão poderão retornar aos níveis de R$ 40,00/saco nos próximos meses. No entanto, neste ano é preciso muita cautela pois existe muito mais soja à disposição no mercado nacional e mundial, fato que poderá impedir aumentos tão significativos como os ocorridos no final de 2002 e mesmo em finais de 2001. Naquelas oportunidades, tais aumentos foram causados unicamente pelo câmbio, o que leva a um aumento nos custos de produção, muitas vezes acima da própria valorização do produto. A vantagem, em 2003, é que se espera uma recuperação dos preços nacionais graças à valorização do produto em Chicago e não exatamente pelo câmbio.
Desta forma, os preços atuais ainda estão interessantes aos produtores, apesar de naturalmente não repetirem o final de 2002, e podem se recuperar mais diante dos atuais motivos existentes em torno da oferta nos EUA. Porém, racionalmente, a euforia não deve contagiar ninguém pois este mercado sempre foi muito instável e os indicativos atuais podem não se confirmar para o final do ano.