No último dia 28 de março o USDA, departamento de agricultura dos EUA, divulgou a intenção de plantio dos produtores estadunidenses para a futura safra de verão (soja e milho). Os números não chegaram a surpreender pois uma parte do mercado indicava possibilidades de recuo na área a ser plantada com soja. No entanto, é significativo o fato de que os produtores daquele país, pela primeira vez nos últimos anos, estejam projetando ocupar menos área com soja em relação ao milho.
Efetivamente, o relatório anunciou uma área de soja em 29,53 milhões de hectares contra 30 milhões plantados no ano anterior. O número anunciado ficou no patamar mínimo esperado pelo mercado. Por sua vez, em milho a área aumentou para quase 32 milhões de hectares contra 30,7 milhões em 2001, ficando muito próximo do patamar máximo esperado pelo mercado.
Em se confirmando este plantio nos EUA, e sob condição de produtividade normal, a tendência será aquele país colher em outubro algo em torno de 76 milhões de toneladas. Menos, portanto, do que as 78,7 milhões, confirmadas nesta última safra. No entanto, a redução em volume não chegaria a ser significativa se comparada com o comportamento médio da produção estadunidense nestes últimos 10 anos. Todavia, a mesma tende a influir sobre os estoques finais, já em recuo de 4,9% em relação a março de 2001.
Apesar deste quadro relativamente otimista para as cotações da soja em Chicago, na medida em que o mercado estará agora muito dependente do comportamento do clima nos EUA e à evolução dos estoques finais, não houve modificações imediatas nestas cotações. As mesmas inclusive recuaram um pouco nos primeiros dias após o anúncio do relatório, momento em que escrevemos este artigo. Isto pode ser explicado por três razões aparentes: a) o mercado esperava uma redução de área maior do que a anunciada (470.000 hectares), tendo havido, inclusive, anúncio de um recuo superior a um milhão de hectares junto a analistas privados que antecederam o relatório oficial; b) o mercado pode estar considerando que um aumento na produtividade, o qual tem ocorrido nos últimos anos, poderá compensar parcialmente a redução da área; c) parte do mercado ainda considera a possibilidade de reversão nos atuais números de plantio, apostando que a área de soja possa pelo menos repetir o número ocorrido no ano anterior.
Pelo sim ou pelo não, o fato é que os preços da soja no Brasil, que atualmente (primeiros dias de abril) alcançam um patamar bem mais baixo (ao redor de R$ 19,50/saco ao produtor na média do Estado), embora previsível e anunciado, ganham a real possibilidade de uma recuperação no segundo semestre. Desta vez não mais em função de movimentos cambiais, como foi no ano passado, mas sim pela valorização do produto em razão de uma possível redução na produção dos EUA associada a uma demanda mundial que se mantém aquecida. Vale destacar ainda que, em havendo problemas climáticos nos EUA entre os meses de maio e agosto, a recuperação das cotações em Chicago seria mais rápida e mais cedo. Afinal, a média de março de 2002 ficou em US$ 4,59/bushel enquanto a média histórica (últimos 30 anos) é de US$ 6,23/bushel. Já a média dos últimos 15 anos registra US$ 6,08/bushel.
No entanto, a realidade ainda não permite euforias demasiadas pois se nota, por enquanto, uma enorme resistência do mercado internacional em romper de forma duradoura a barreira dos US$ 5,00/bushel em Chicago (este rompimento, nos últimos 36 meses, foi registrado em apenas 8 meses). Dito isto, tudo indica que aos poucos o mercado está assumindo uma nova postura, mais altista, a qual deverá ser confirmada em 2003 com a entrada em vigência do novo Farm Bill dos EUA, menos favorável ao plantio da soja, caso os valores previstos para os preços de apoio ao produtor estadunidense se confirmem.