O relatório de intenção de plantio nos EUA, anunciado no último dia 31/03, acabou sendo negativo para os grãos de soja e milho. Na soja, o mesmo indicou uma futura área semeada de 31,6 milhões de hectares, ou seja, 300.000 hectares acima do registrado no ano anterior.
Boa parte do mercado estava esperando um recuo de meio milhão de hectares para a oleaginosa. Já no milho, o relatório elevou em 3% a área a ser semeada, com a mesma devendo chegar a 35,9 milhões de hectares. Esses aumentos de área se darão em detrimento do trigo e do algodão que tiveram uma redução de área respectivamente de 9% e 15% segundo o relatório.
Com isso, no imediato as cotações da soja e milho recuaram em Chicago. A oleaginosa voltou aos patamares de US$ 9,40/bushel, após ter ultrapassado US$ 9,70 no dia anterior ao anúncio do relatório, enquanto o cereal viu seu preço chegar a US$ 3,45/bushel. Mesmo o trigo, que deverá ter área menor, acabou registrando forte queda em suas cotações em Chicago, no último dia de março, ao bater em US$ 4,50/bushel, após US$ 5,03 no início do mês passado.
O reflexo sobre os preços da soja no Brasil tende a ser de recuo, confirmando a possibilidade de que o balcão gaúcho passe a oscilar entre R$ 30,00 e R$ 33,00/saco nas próximas semanas, caso não haja outros movimentos que venham reverter o atual quadro pós-anúncio de intenção de plantio norte-americano.
Inflação continua preocupando
Entramos no mês de abril e, com ele, deveremos assistir alguns movimentos de freada no aquecimento da economia nacional. O mesmo, que de forma anualizada bateu em 7% em março, deverá sofrer o impacto negativo da retirada das isenções dos impostos no final de março, exceção feita a produtos do setor moveleiro, e igualmente da retomada na elevação dos juros básicos, a Selic.
Analistas do setor financeiro nacional projetam, no momento, uma inflação oficial, pelo IPCA, de 5,16% em 2010, enquanto a meta estabelecida é de 4,5%. Na prática, a tendência se mantém de uma Selic, no final do ano, ao redor de 11,75%.
Ou seja, três pontos percentuais acima dos 8,75% registrados no encerramento de 2009.
Déficit nas contas públicas
A utopia de se alcançar o déficit zero nas contas públicas brasileiras em 2010, pleno ano eleitoral, obviamente não se confirmará. Aliás, no ritmo em que os gastos públicos nacionais avançam, jamais obteremos tal resultado.
A economia feita pelo governo (receita cobrindo todas as despesas, inclusive os juros) está agora projetada para 2013. E a coisa pode piorar, pois o governo, no afã de eleger seus candidatos nas próximas eleições, e assustado com os efeitos da crise mundial que perdura, decidiu reduzir a meta para o superávit primário neste último ano.
Agora, volta a estabelecer a meta de 3,3% para tal superávit, porém, já cogita de abater da meta os investimentos em até 1% do PIB. Se isso vier a ocorrer o déficit zero poderia ser alcançado apenas em 2015. Paralelo a isso, o atual governo mantém outro exercício de ficção, diante do descalabro dos gastos públicos: reduzir a dívida líquida do setor público dos atuais 40,7% do PIB em 2010 para 28,7% em 2014.
Nessas condições, pobre do próximo governo que será eleito e, principalmente, pobre do povo brasileiro se os gastos públicos, no futuro governo, continuarem no ritmo que o governo Lula adotou nos últimos dois anos.
Brasil: concentração de renda continua
Apesar de todas as medidas assistencialistas postas em prática pelo governo Lula, e do controle da inflação existente há 16 anos, o Brasil continua sendo o país que mais concentra renda na América Latina. Estudo recente da ONU mostra que metade da riqueza nacional pertence aos 10% mais ricos, enquanto os mais pobres levam apenas 0,8% dos recursos do país.
Na América Latina 40% ou mais das riquezas fica com um décimo da população. O problema brasileiro, e dos demais países latino-americanos, está na necessidade de manter a estabilidade econômica, contendo a inflação em níveis baixos, já que a existência da mesma é um fator de concentração de renda, e ao mesmo tempo realizar os ajustes estruturais no Estado.
Afinal, o fato das reformas do Estado não saírem permite que o mesmo continue sendo o grande concentrador de renda, via impostos, péssimos serviços à população, burocracia demasiada e corrupção intensa, o que perpetua a desigualdade social.
A questão não é “mais Estado na economia” e sim construirmos um Estado organizador eficiente, que possibilite mais competitividade aos agentes econômicos que atuam no mercado e realmente ofereça serviços dignos a sua população.
Agricultura: insumos voltam a subir
Mesmo diante de preços agrícolas bem menores no mercado internacional e nacional, os insumos agrícolas no Brasil apontam para a retomada das altas, fato que agravaria os custos de produção dos produtores rurais para 2010/11. No Mato Grosso, onde a safrinha de milho é a mais importante e a produção de algodão se destaca, a preocupação é grande.
Quem ainda não comprou seus insumos enfrenta agora uma alta significativa de preço nos mesmos. No primeiro trimestre de 2010, na região norte daquele Estado, os preços dos fertilizantes subiram 30%. Isso representa, por tonelada, ao preço atual, oito sacos de soja a mais em relação a ultima safra.
Atenção, portanto, aos produtores do sul do Brasil, pois parece estarmos diante de uma tendência para o conjunto do país.