O relatório do USDA, divulgado neste último dia 12 de outubro, jogou definitivamente uma ducha de água fria sobre àqueles que esperavam um possível aumento nas cotações internacionais da oleaginosa. O mesmo não só confirmou um aumento na atual safra dos EUA (colheita superior a 50% da área em meados de outubro) como aumentou as projeções da futura safra brasileira e argentina.
Assim, a nova estimativa para a colheita de soja nos EUA alcança um total de 79,1 milhões de toneladas contra 77,1 milhões anunciados em setembro passado e 75,06 milhões efetivamente colhidas na safra anterior. Ao mesmo tempo, o relatório baixou as vendas externas estadunidenses para 26,67 milhões de toneladas contra 26,94 milhões projetadas em setembro e as 27,22 milhões exportadas em 2000/01. O efeito desta combinação resultou num aumento dos estoques finais de soja nos EUA. Os mesmos, agora, estão projetados em 9,39 milhões de toneladas ou 35,3% acima do volume anunciado em setembro e 39,1% acima dos estoques finais do ano anterior.
No que tange a safra mundial de soja, o referido relatório apontou uma colheita total de 180,67 milhões de toneladas contra 175,44 milhões anunciados em setembro e 172,11 milhões de toneladas efetivamente colhidas em 2000/01. Os estoques finais mundiais estão agora projetados para 29,04 milhões de toneladas, superando as 28,37 milhões registradas no ano anterior. Para o Brasil, o USDA confirma a tendência indicada por analistas privados nacionais, e aponta uma safra de soja ao redor de 41,5 milhões de toneladas após projetar 39 milhões em setembro passado. Lembramos que a colheita da última safra chegou a um volume de 37,5 milhões de toneladas. Já a Argentina, segundo ainda o USDA, deverá colher 27 milhões de toneladas de soja em 2002 após 26 milhões neste ano.
Em todos os casos aqui apontados estamos diante de novos recordes históricos de produção. Desta forma, se o clima colaborar, como colaborou para a safra dos EUA, o mundo se verá diante de nova e grande oferta da oleaginosa. Menos mal que a oferta mundial de colza e girassol deve cair um pouco mais. No entanto, na área da produção de óleos vegetais comestíveis, o óleo de palma continua aumentando sua oferta.
Neste contexto, os preços internacionais da soja tendem a se manter muito baixos e até a recuarem um pouco mais. O próprio USDA, neste seu último relatório, aponta um intervalo de preço entre US$ 3,90 e US$ 4,70/bushel em Chicago para este atual ano comercial iniciado agora em setembro. De fato, as cotações em Chicago, nos dois dias que se seguiram ao anúncio do relatório recuaram para US$ 4,29/bushel para o primeiro mês (a cotação mais baixa desde o final de abril passado).
Nestas condições, e projetando uma tendência estável para o nosso câmbio, isto é, que o mesmo fique ao redor de R$ 2,70 a R$ 2,85 até o final do primeiro semestre de 2002, é muito provável que os preços em reais, ao produtor brasileiro em geral e gaúcho em particular, fiquem abaixo dos melhores momentos vividos neste segundo semestre de 2001. Não podemos esquecer que em dólares o saco de soja ao produtor gaúcho, no balcão, chegou ao seu melhor momento, neste ano, no mês de janeiro (antes da nova disparada cambial), quando bateu em US$ 9,76/saco na média. Ou seja, o mercado trabalhou ainda muito abaixo da média histórica (últimos 17 anos) que é de US$ 11,00/saco.
Esta realidade comprova o artificialismo das atuais altas em reais, na medida em que elas correspondem apenas a depreciação do real em relação ao dólar e não à valorização do produto especificamente. Ou seja, o produtor acaba ficando à mercê do aumento dos custos, na medida em que os insumos tendem a subir na linha do câmbio, enquanto o produto, passado o momento conjuntural, tende a recuar.
Não é por acaso que as vendas futuras do produto cresceram em relação a esta nova safra. Efetivamente, até o início de outubro, 24% da futura safra nacional já teria sido vendida antecipadamente pelos produtores, sendo 11% no Paraná e 5% no Rio Grande do Sul. No ano passado, neste época, os produtores brasileiros haviam comercializado 7% da safra, sendo 4% no Paraná e zero no Estado gaúcho.
Esta igualmente deverá ser a lógica em relação aos custos de produção. Ou seja, antecipá-los visando diminui-los. A tendência será reduzi-los ao máximo sem comprometer a qualidade da safra. Neste sentido, espera-se que o governo brasileiro assuma uma posição definitiva e coerente com a realidade mundial em relação a soja transgênica. O produtor, que nela vê a possibilidade de reduzir custos e até aumentar rendimentos, percebe que o mercado internacional está aos poucos absorvendo cada vez mais o produto. A tal ponto que não há preços especiais compensadores para o produto convencional. Como se alertava, os importadores europeus não podem pagar mais pelo chamado produto convencional pois elitizariam o consumo na Europa, construindo apenas um pequeno nicho de mercado em relação ao volume total transacionado por eles próprios. Muitas experiências efetuadas neste sentido, procurando ofertar carnes, leite e outros produtos originários de animais nutridos com soja convencional, se transformaram em fracasso pois o consumidor local não está interessado em pagar um preço mais elevado pelos mesmos.
A lição originária dos produtores dos EUA parece ser eloqüente neste sentido: cerca de 80% da atual safra que lá vem sendo colhida seria transgênica, pois os custos com herbicida caem em até 50% e em muitos casos os rendimentos melhoram em até 3 bushels por hectare (algo em torno de 82 quilos). Além disso, os mesmos ganham subsídios oficiais via preço de garantia. A nova lei agrícola, que deverá vigorar a partir de 2002, estabelece um preço de garantia de US$ 5,96/bushel ao produtor. Isto significa US$ 1,45/bushel acima do valor registrado em Chicago no dia 16/10 para novembro de 2002, momento em que a futura safra dos EUA será comercializada.
Assim, não basta ser contra apenas aos subsídios na exportação destes países mas também é preciso coibir, via OMC, os subsídios à produção. Seja nos EUA, na Europa ou em qualquer outro lugar. Caso contrário, a competição no mercado internacional será um jogo de cartas marcadas (como, aliás, vem sendo), favorecendo sempre quem recebe proteção do Tesouro de seu país e não quem tem mais eficiência produtiva e comercial.