Como já se sabia, os produtores estadunidenses, visitados no final de agosto passado, nos confirmaram que a produção de milho e soja nos EUA se viabiliza graças a um forte apoio oficial. Sem a intervenção do governo, com a prática de subsídios, apenas a produção de milho é viável a preços de mercado (Bolsa de Chicago). Isto porque a mesma se viabiliza com preços a partir de US$ 2,00/bushel (25,4 quilos) e o mercado fechou, no dia 21/09, a US$ 2,12/bushel. Quanto a soja, a situação é bem mais complicada. A mesma passa a ser viável a partir de US$ 5,00/bushel (27,21 quilos). Isto, mesmo com propriedades obtendo uma produtividade média ao redor de 62 sacos/hectare. Ora, o fechamento no dia 21/09 foi de US$ 4,69/bushel.
Assim, pudemos confirmar que o produtor planta a oleaginosa com base no preço oficial subsidiado, hoje mantido em US$ 5,26/bushel. Alguns produtores chegaram a nos falar que a soja comercializada abaixo de US$ 5,45/bushel, a partir desta safra, tem cobertura do governo no que tange a diferença em relação ao preço de mercado.
Isto explica a tendência, em não havendo mudanças desfavoráveis na Lei Agrícola dos EUA, da manutenção e mesmo aumento na área plantada com a oleaginosa naquele país. Como os produtores, em boa parte dos casos, fixam os preços antes do plantio, a Lei Agrícola é decisiva para a tomada de decisão antecipada.
Este procedimento tem mantido baixos os preços na Bolsa de Chicago e, com isto, atingido os demais produtores de soja no mundo, especialmente os brasileiros. Neste ano, caso não tivesse havido a forte desvalorização do real perante o dólar (mais de 40% até o dia 22/09) o saco de soja ao produtor gaúcho, no balcão, estaria entre R$ 18,00 e R$ 20,00 neste final de setembro.
Todavia, mesmo com o apoio oficial, os produtores dos EUA continuam buscando alternativas para reduzir custos e aumentar a produtividade. Neste sentido, vale destacar que a atual safra de soja, cuja colheita se inicia, possui 80% de produto transgênico. Em muitas propriedades, o plantio de soja transgênica chega a 100%. Para os produtores visitados, se o transgênico fosse nocivo o produto já teria sido eliminado dos EUA. A este respeito, alguns produtores consultados acusaram as entidades contrárias à soja transgênica de possuírem muito dinheiro, sendo financiadas por diferentes organismos e empresas que não estão conseguindo entrar nesta competição tecnológica. Segundo eles ainda, a França igualmente resistiu por muito tempo ao milho híbrido e agora o aceita abertamente. Desta forma, agora é a vez dos produtos transgênicos mas que tal reação contrária, mais dia menos dia, irá desaparecer. Mesmo porque, não há diferença de preço entre a soja convencional e a transgênica, enquanto a redução de custos na produção é evidente. Aliás, junto a Associação Cooperativa dos Produtores, no Estado de Illinois, vimos que o preço oferecido ao produtor, na pedra, era mais elevado para a soja transgênica do que para a convencional. Para dezembro de 2001, no dia 27/08, o produto transgênico estava cotado a US$ 4,64/bushel contra US$ 4,56/bushel para o convencional. Das tantas explicações oferecidas para o fato, duas saltam aos olhos: o mercado é comprador de transgênico e não há espaço físico para guardar o produto convencional por longo tempo (o custo de logística em torno do mesmo é muito elevado).
De fato, a luta por redução de custos é evidente. Isto porque, lá como aqui, há necessidade cada vez maior de escala na produção de grãos. Antigamente, um produtor dos EUA conseguia se manter com 80 hectares de planta. Hoje são necessários 800 hectares em muitas regiões, mesmo com o aumento de produtividade e a redução de custos em função do uso de sementes transgênicas. Com o agravante de que a maioria dos produtores arrenda grande parte das terras pois apenas 20% a 30% dos mesmos são donos da totalidade das terras que plantam. Na maioria das localidades da região de produção de soja e milho nos EUA, entre 10% a 20% das terras são próprias e o restante é arrendado.
Isto porque o custo da mesma, assim como o custo de produção, é muito elevado. Neste momento, o preço do hectare de terra no Meio-Oeste dos EUA está ao redor de US$ 6.000,00 (R$ 17.040,00 pelo câmbio do dia 21/09). Por sua vez, o custo de produção da soja, mesmo transgênica, sobe a US$ 5,29/bushel em boa parte dos EUA. Assim, a preços de mercado (Bolsa de Chicago) os produtores não seriam competitivos e teriam falido fazendo soja. É neste ponto que o subsídio oficial se torna decisivo para mantê-los na atividade e na agricultura em geral.
Pode-se imaginar a realidade destes produtores caso não tivessem obtido um aumento de produtividade com a soja na história recente (entre 1960 e 2000 a produtividade média passou de 1.681 quilos/hectare para 2.353 quilos/hectare) e uma redução de custos pela utilização de novas tecnologias, como a da semente transgênica. Neste último caso, embora o custo da semente transgênica seja de US$ 69,00/hectare contra US$ 49,50/hectare da convencional, o custo com herbicidas cai de algo entre US$ 74,00 a US$ 99,00 no tratamento da soja convencional para US$ 49,42/hectare para a transgênica. Além disso, o produto transgênico tem obtido um rendimento de 3,4 a 5,6 sacos de soja a mais por hectare do que o produto convencional.
Obs. Com base em observações feitas a partir de viagem realizada à região de produção de milho e soja dos EUA, no período de 24/08 a 02/09/2001, a convite da cooperativa Cotrijal, com apoio da empresa Syngenta.