Os produtos transgênicos continuam a ser notícia pelo mundo afora. Embora, na prática, a população mundial continue a consumi-los sem grandes discussões, muitas vezes inconscientemente, o fato é que estes produtos têm servido a causas políticas, protecionistas e econômicas. Além disto, duas preocupações maiores ainda vieram à tona com este debate: a) o risco de os produtores ficarem dependentes das sementes transgênicas e, assim, dependentes de poucas empresas de sementes; b) o risco de que tais produtos possam provocar problemas à saúde humana e ao meio ambiente.
No caso político, certos partidos políticos usam estas preocupações para reforçar a velha e surrada tese do confronto contra o imperialismo internacional. Os movimentos se radicalizam usando a ética e a proteção ao meio ambiente como motivo, quando a ciência, que de fato deveria ser a mais ouvida neste caso, não tem nenhum resultado conclusivo contra os transgênicos. Pelo contrário, a maioria dos cientistas europeus, situados na região onde existe forte resistência contra estes produtos, têm respondido que nada desabona estes produtos quanto a efeitos sobre a saúde humana ou animal.
No caso protecionista, muitos países procuram utilizar a polêmica para protegerem momentaneamente seus mercados. É o caso da China com a soja. Buscando estimular sua produção interna, visando ficar menos dependente das importações, o país chinês usou e abusou da informação de que iria exigir certificação para cada carga importada de soja. Após anunciar que iria definir as regras do jogo em março, o assunto acabou ficando para dezembro deste ano. Paralelamente, a China anuncia que não possui nenhuma restrição à soja transgênica.
Enfim, em termos econômicos, este debate permitiu o surgimento de, por enquanto, nichos interessantes de mercado para produtos não-transgênicos, os conhecidos convencionais. No caso da soja, isto ficou evidente com alguns países como os da região da União Européia e o Japão, que têm procurado selecionar suas compras, embora não paguem um preço condizente com o esforço do produtor rural e suas cooperativas em isolar o produto, desde a produção até o desembarque no país comprador. Este é um importante empecilho para estimular os produtores a conservarem a produção de soja convencional diante da soja transgênica que, comprovadamente, reduz custos de produção. Paralelamente, a soja orgânica, esta sim bem paga, abriu um outro nicho interessante de mercado, na esteira de outros produtos orgânicos que se destinam a uma elite mundial que pode pagar um preço diferenciado por produtos especiais. Na verdade, a economia contemporânea estimula o processo de produção e o surgimento de mercados onde os produtos diferenciados, com preços diferenciados, ganham espaço.
Dito isto, assistimos a uma reação tradicional da sociedade diante do novo. E, como sempre acontece, surgem as mais variadas opiniões, em cima de boatos normalmente, sem que se possa discernir a veracidade dos fatos. Salvo exceções realmente isoladas, no geral as sociedades que resistem aos avanços da ciência, em qualquer área, são aquelas que atrasam o seu desenvolvimento e dificilmente o recuperam um dia. Isto não significa deixar de lado a precaução diante dos novos inventos, porém, não significa igualmente destruir e impedir que os cientistas façam o seu papel e nos informem abalizada e comprovadamente sobre a questão.
A história recente da soja no Rio Grande do Sul está cheia de ensinamentos neste sentido. Apoiando-se na inoperância da Federação quanto a tomar uma posição definitiva sobre o assunto da soja transgênica, o atual governo deste Estado partiu em cruzada contra a soja transgênica, mais por questões políticas do que por outros motivos. Pela incapacidade de fazer frente a tamanho desafio, perdeu o controle da situação e o processo virou em baderna com invasões de propriedades, de experimentos científicos e destruição de lavouras supostamente transgênicas. Enquanto isto, na prática, os produtores, na busca de uma solução para aumentar a sua rentabilidade, comprovaram as vantagens da soja transgênica neste campo e partiram para produzi-la. Inicialmente alimentados pelo contrabando, procedente da Argentina e Paraguai, e posteriormente produzindo a sua própria semente e revendendo-a aos vizinhos. A perda de controle deste processo, por absoluta falta de seriedade e lerdeza no trato da questão, deixou os produtores de soja à mercê de um produto não adaptado à região. Aquilo que a ciência deveria fazer, junto aos centros de pesquisa no Estado, e que foi impedida por ações interesseiras e pouco inteligentes de supostos produtores ligados a movimentos “sociais” (com apoio até explícito do governo estadual), está sendo feito empiricamente pelos produtores rurais, fato que torna ainda mais lenta a conquista de resultados conclusivos.
Se a seca que se abateu sobre o Rio Grande do Sul neste verão atingiu com mais intensidade, em muitas regiões, a soja transgênica, isto se explica pelo fato de não termos tido a visão de estimularmos a ciência a fim dela nos fornecer uma resposta adequada, sob a forma de sementes apropriadas às nossas condições de plantio. Isto não ocorreu porque as regras não foram definidas com rapidez, enquanto nossos concorrentes nesta área o fizeram (EUA e Argentina). Regras estas justamente emperradas por ações de supostos defensores dos consumidores e de uma chamada classe produtora que se diz sem terra mas que, na prática, parece não desejar a mesma. Sem falar que estes mesmos agricultores que são utilizados para estas manobras, quando se dedicam finalmente a plantar, o fazem com soja transgênica, pois ninguém é insano de perder dinheiro por questões políticas que acabam sempre beneficiando alguns poucos. Diante disto, espera-se que o Brasil legalize finalmente a soja transgênica, dentro de padrões indicados pela ciência, e deixe os produtores rurais decidirem, com base em cálculos econômicos, que tipo de soja irá plantar. Talvez a posição chinesa neste momento, de exigir certificação no final do ano para toda e qualquer importação da oleaginosa, mesmo que não tenha esta intenção, leve o Brasil a finalmente tomar uma decisão definitiva e na direção que o setor primário tanto espera (conforme pesquisa, 85% dos produtores da região Centro/Norte do Rio Grande do Sul, que representa 80% da produção de soja do Estado, se dizem favoráveis à soja transgênica e reclamam pela sua legalização).