Dando continuidade ao tema abordado na coluna passada, vamos analisar os diferentes pontos de vista existentes na economia atual em relação as exigências feitas para a Grécia, Espanha e outros países que enfrentam uma crise de alto endividamento público, resultante de medidas populistas de gastos estatais, agravada pela crise maior que estourou no mundo em agosto de 2007.
Ao acumularem um déficit público insustentável (acima do PIB anual), a proposta de redução dos salários públicos (uma espécie de reforma administrativa) permitiria melhorar as finanças do Estado e frear a retomada da inflação. Afinal, na Grécia, por exemplo, a evolução dos preços ao consumidor foi 10% superior ao que ocorreu no restante da “zona euro”, entre o primeiro trimestre de 2001 e o quarto trimestre de 2009. Para os padrões europeus, uma diferença colossal.
Assim, uma moderação salarial se impõe visando recuperar os Estados grego, espanhol e outros, hoje quebrados. Todavia, tal posição, sustentada pela OCDE e pela Comissão Europeia, sofre restrições de uma linha de economistas. A base desta restrição está na negação de que os países em dificuldades hoje tenham abusado dos gastos públicos, na medida em que os mesmos possuem custos salariais menores do que a Alemanha e França, países líderes da União Europeia.
Ao contrário, segundo eles, a redução dos salários deformaria a divisão da renda, favorecendo o lucro, fato que levaria a um aumento da poupança, que já é grande, num momento em que se precisa de mais consumo.
Solução para a crise: reduzir a renda? (II)
É evidente que a adoção de planos de austeridade, tipo o proposto, provoca uma redução no ritmo da economia, o qual se traduz por aumento do desemprego, inclusive junto ao setor privado. Esse desemprego levaria a uma redução da remuneração paga pelas empresas.
Pelo sim ou pelo não, o fato é que sem uma correção nos custos do Estado, passando pelos salários e número de funcionários públicos, a concentração de renda aumenta e a crise econômica, no longo prazo, não é vencida. O Brasil conhece muito bem esse problema! No caso dos países europeus, a adoção de políticas de restrição de gastos, como a redução salarial, embora sendo um remédio, pode não surtir efeito, pois a pressão sindical do setor público é muito grande.
O mesmo, em defesa de seus interesses, irá preferir comprometer o conjunto da sociedade e o próprio país. Além disso, será preciso que a Alemanha particularmente, o principal mercado consumidor da região, não prossiga sua moderação salarial, visando aumentar sua competitividade, e com isso reduza suas importações em geral e dos seus vizinhos em dificuldade em particular. Como se pode ver, a situação é complexa e não há receitas mágicas.
Ou seja, a crise e seus efeitos estão longe de terminar! Diante disso, o caminho clássico de reestruturar os custos estatais, tornando o Estado um agente eficiente e competitivo, somado a um aumento da capacidade de poupar das famílias, visando preparar o longo prazo, ainda são elementos decisivos para o crescimento econômico de longo prazo, com potencial geração de desenvolvimento.