Soja: tendência de baixa nos preços
O mercado internacional da soja, desde o estouro da crise econômico-financeira, vem dando mostras de perda de fôlego. Assim, após o recorde de US$ 16,58/bushel obtido no início de julho de 2008, assistimos a um recuo importante nas cotações em Chicago, com as mesmas batendo em US$ 7,83 no início de dezembro passado.
Posteriormente, houve uma recuperação das mesmas, com picos de até US$ 13,00/bushel no primeiro semestre de 2009, porém, na atualidade (final de agosto de 2009), Chicago trabalha com cotações ao redor de US$ 9,96 para novembro.
Ao mesmo tempo, o dólar voltou a perder força em relação ao Real, com a cotação do mesmo chegando a R$ 1,86 neste momento. Paralelamente, a produção mundial caminha para um aumento significativo, podendo superar em 30 milhões de toneladas o volume colhido no ano anterior.
Os EUA esperam colher algo entre 87 e 90 milhões de toneladas, o Brasil aposta novamente em volumes acima de 60 milhões e a Argentina trabalha com a possibilidade concreta de chegar a 51 milhões de toneladas. Assim, um exercício realista de projeção de preços ao produtor do Noroeste gaúcho, para abril de 2010, acaba trazendo preocupações.
Os preços locais tendem a ser claramente mais baixos do que os praticados no momento, que ficam ao redor de R$ 42,78/saco na média estadual. Considerando um valor em Chicago, para abril próximo, em US$ 9,50/bushel; um câmbio de R$ 1,90; prêmio positivo de US$ 0,50/bushel e os mesmos níveis de descontos (custos e margens) aplicados na atualidade, o preço do saco de soja chegaria ao redor de R$ 34,50 em abril próximo.
Ou seja, mais de 8 reais abaixo do praticado no momento e cerca de 14 reais abaixo do preço praticado nos melhores momentos desta última safra da oleaginosa.
Soja: tendência de baixa nos preços (II)
E parece que nossos cálculos ainda são otimistas! A julgar pela palestra ocorrida em Cuiabá (MT), na semana passada, por ocasião do painel Mercado de Commodities Pós-Crise Mundial – Previsões de Safras e Preços, realizado junto à 3ª Bienal dos Negócios da Agricultura, proferida pelo analista Darin Newson, da The Progressive Farmer (EUA), o bushel de soja, passada a colheita dos EUA em outubro, poderá muito bem recuar para os níveis da média histórica (37 anos), que é de US$ 6,58 no momento.
Ora, se isso vier a ocorrer até abril próximo, mantendo as demais variáveis nos níveis apontados anteriormente, o saco de soja ao produtor gaúcho poderá muito bem recuar para níveis ao redor de R$ 25,50 quando de nossa futura colheita.
Aliás, para quem não acredita nesta possibilidade, embora seja efetivamente apenas uma tendência e muita coisa ainda pode acontecer até abril, lembramos que em abril de 2006 o câmbio médio foi de R$ 2,12 enquanto Chicago trabalhou em US$ 5,68/bushel e o preço médio, no balcão, ao produtor esteve em R$ 22,00/saco.
Ou seja, é plausível, em condições normais de economia e mercado, que as cotações internacionais busquem a média. Afinal, o período entre meados de 2007 e meados de 2009 deve ser considerado atípico em todos os sentidos, ou seja, uma exceção. Assim, torna-se urgente que os produtores aproveitem as ofertas de preços ainda interessantes nas negociações da futura safra, visando realizar uma média de comercialização. Como aliás igualmente foi o caso nos últimos anos!
O que preocupa nisso tudo é que os custos de produção subiram muito mais do que o preço da soja, e seu recuo é muito menor, fato que estará eliminando ainda mais a já pequena rentabilidade que se desenha ao produtor.
Além disso, até o presente momento, os produtores gaúchos quase nada venderam de sua futura safra, mesmo com ofertas ao redor de R$ 41,00/saco para 30 de abril em algumas regiões do Estado.
Inadimplênicia nacional se confirma
O alerta que se faz, em torno do algo grau de consumo da economia brasileira, estimulado pelo governo, no afã de impedir que a crise econômica seja ainda maior, começa a se justificar. O remédio aplicado ajuda a controlar, sem dúvida, a crise, porém, seus efeitos colaterais são importantes.
Dois deles já estão presentes em nossa economia: o aumento da inadimplência dos consumidores; e o alto endividamento estatal. Em relação ao primeiro problema, os últimos dados nacionais apontam que a inadimplência média no crédito subiu, em julho, pelo oitavo mês consecutivo, chegando a 5,9% e se constituindo no maior nível desde o ano 2000.
O pior é que as pessoas físicas, que se deixam mais facilmente levar pelos apelos consumistas, mesmo em época de alta crise, registraram uma inadimplência de 8,6% em julho. E essa tendência, incluindo muitas empresas igualmente, deverá prosseguir nos próximos meses, infelizmente.
Assim, se é verdade que talvez tenhamos chegado ao “fundo do poço” da crise, igualmente é verdade que as consequências do processo e do esforço de recuperação, pela falta de seriedade no trato da situação em muitos casos, apenas começam a surgir em nossa economia.