A timidez oficial
No combate a inflação não se deve ter meio termo. O flagelo da alta dos preços é tão grande, especialmente para os mais pobres, que todo o governo que se preze não pode permitir que a mesma ganhe corpo. Ora, no Brasil, apesar de um histórico não muito distante de hiperinflação (até 1994, quando do lançamento do Plano Real, nossa realidade era de total descontrole sobre a inflação), quando se chegou a superar 80% mensais, estamos atualmente indecisos quanto ao real combate a ela oferecer. É claro, a realidade inflacionária hoje é diferente. Os preços sobem, porém, ainda estamos dentro da meta estabelecida. Porém, prestes a ultrapassar o chamado teto desta meta (6,5% ao ano). E abril vem apontando para novas altas, com o acumulado anual saindo de 6,3% para 6,44% (IPCA) se o ritmo tiver persistido nesta última semana do mês. Nesse contexto, chamou atenção a timidez do aumento do juro básico (Selic), no dia 20/04. O mesmo ficou em apenas 0,25 ponto percentual, elevando o juro anual para 12%. O mercado esperava pelo menos 0,5 ponto percentual. Na prática, estamos diante de um risco calculado. O Banco Central, pressionado por setores do governo (leia-se Ministério da Fazenda), gostaria de manter o crescimento do PIB nacional, em 2011, pelo menos ao redor de 4% (após 7,5% em 2010). Ora, o aumento dos juros freia cada vez mais a atividade econômica. Situação que será evidente no segundo semestre, já que a política do juro alto leva cerca de seis meses para começar a fazer efeito real sobre a economia.
A timidez oficial (II)
A lógica estaria na ideia de manter o máximo possível de empregos, após a grave derrapada do governo anterior em relação ao controle da economia, mesmo que a inflação corroa os ganhos obtidos em tais empregos. O risco é alto das perdas serem bem maiores do que os possíveis ganhos com tal estratégia, como o passado já nos ensinou. Mas há outro componente em jogo. Trata-se do câmbio ou, mais precisamente, da contínua sobrevalorização do Real (na média, nos primeiros quatro meses deste ano, o Real valeu 1,65, contra 1,79 por dólar no mesmo período do ano passado). Assustado com o problema, o governo reteve o aumento dos juros para que tal medida igualmente não se tornasse um chamariz muito grande a uma nova enxurrada de dólares para dentro do país. Afinal, enquanto os juros internacionais estiverem próximos de zero, todo e qualquer aumento de juros em nosso país atrai dólares especulativos, sobrevalorizando ainda mais o Real. A receita para resolver esse enorme problema nacional já é por conhecida, porém, os governos e a sociedade têm se mostrado incompetentes para adotá-la. Tratase de cortar gastos públicos, enxugar a máquina estatal de maneira estrutural, reduzindo a dívida pública que já ultrapassa R$ 1,7 trilhão. Enquanto não fizermos isso, continuaremos flertando com medidas pontuais, num precário equilíbrio que rapidamente pode colocar por terra toda a estabilidade econômica que se conquistou nos últimos 17 anos.
Consumo x investimentos
Para se entender melhor o comentário anterior, imperioso se torna explicar que nosso histórico, e particularmente nos oito anos do governo Lula, o país pouco tem feito em novos e importantes investimentos de infraestrutura. Na verdade, o que se fez foi aumentar o inchaço do setor público, colocando o dinheiro público em favor do consumo e não do investimento. Isso explica a necessidade de constantes aumentos de impostos e também as crises nas estradas, na educação, na saúde pública, na segurança e assim por diante. E recuperar investimentos num país do nosso tamanho leva tempo! Assim, de nada adianta crescer fortemente se não temos nem mesmo mão de obra qualificada para ocupar os empregos que surgem, elevando assim os custos de produção. E o governo atual prefere apostar mais na inflação, com um tímido aumento dos juros em abril, em busca de um crescimento acima de 4% nesse ano, mesmo que a economia não o suporte, ao invés de realizar as efetivas medidas corretivas sobre o real problema que nos aflige. Ora, como ensina Mendonça de Barros (Folha de São Paulo on line) “Um crescimento acima de 4 a 5% não acontecerá sem que a inflação se acelere de forma perigosa e o déficit em conta corrente atravesse a fronteira do bom senso econômico. É preciso reduzir a demanda agregada nos próximos anos para permitir que os gastos de investimento sejam realizados sem pressão sobre os preços.” Exatamente o que não se está fazendo no país.
O poder chinês
A China, que até o fim do poder de Mao Tsé-Tung, em 1976, vivia às margens da sociedade mundial, num contexto de pobreza geral, aprendeu rapidamente que a economia de mercado seria o caminho para a saída do marasmo econômico, mesmo que para isso fosse necessário adotar os princípios capitalistas em muitos setores. O sucesso desta iniciativa, desenvolvida a partir dos anos de 1980, guindou o país asiático ao posto de segunda maior economia do mundo em 2010, superando o Japão. Além disso, a China se tornou o maior poupador mundial. Suas reservas em divisas estrangeiras chegaram, em meados de abril de 2011, a US$ 3,0447 trilhões (cerca de dez vezes mais do que o Brasil possui no momento). Somente no primeiro trimestre de 2011 tais reservas aumentaram em US$ 197,4 bilhões. Ora, a maior parte das reservas chinesas é investida em títulos da dívida pública estadunidense. Isso torna o país asiático o maior credor do governo dos EUA, representando algo em torno de 25% do total da dívida ativa estadunidense. Assim, hoje, os EUA não podem caminhar, e especialmente sair da crise em que está atolado, sem a muleta chinesa. Dito de outra maneira, economicamente a China tem na mão os EUA. Resta agora, aos chineses, transformar essa fabulosa evolução econômica em melhoria da qualidade de vida (isto é, em desenvolvimento) do conjunto de sua população, algo que ainda está longe de ocorrer.