Perigo: inflação descontrolada (?)
A julgar pelo relatório trimestral divulgado pelo Banco Central do Brasil nesta semana, os prejuízos à estabilidade econômica, causados pelo governo Lula em seus dois últimos anos de governo, são maiores do que se imaginava. Seguidamente alertamos para o problema neste espaço, fato que muitas vezes foi interpretado como pessimismo e não como realismo. Pois o realismo mostra a cara nestes primeiros três meses de 2011. O novo governo, diante do tamanho do descontrole econômico e a conseqüente inflação que isso vem gerando, iniciou corretamente uma série de medidas para conter a inflação em alta, mesmo as custas do crescimento econômico. Todavia, o relatório do BACEN deixa entender que o remédio a adotar teria que ser ainda mais amargo e pesado, podendo derrubar o crescimento para níveis muito baixos.
Assim, e aí mora o perigo, os responsáveis pela política monetária estariam preferindo conter a inflação não neste ano mas em um espaço de dois anos. Dito de outra maneira, o governo estaria pensando em tentar trazer a inflação anual para o centro da meta (4,5%) nos próximos dois anos, subestimando o tamanho do problema. E mesmo assim o crescimento do PIB cairia para 4% neste ano. A situação é muito mais grave do que parece, pois muitas empresas já teriam começado a usar o mecanismo da indexação e do reajuste inercial. Ou seja, muitos já estão partindo de um patamar de preços 6% mais alto e jogando novos aumentos em cima. Essa prática, em nosso passado pré-Plano Real, nos vez atingir a hiperinflação e tudo aquilo de negativo que tal situação trouxe ao país. Além disso, de nada adianta melhorar a renda das classes mais baixas, se a inflação aumenta e corrói completamente tal aumento de renda e, até mesmo, mais que isso.
Assim, o perigo é grande de o atual governo estar baixando a guarda, após um início promissor, no controle da inflação e na manutenção da estabilidade, após o abalo irresponsável causado no final do governo Lula. Como já se sabia, no imediato as medidas populistas e eleitoreiras parecem ser muito positivas à população, porém, rapidamente a economia cai na real e a sociedade começa a pagar a conta. Nesse sentido, o atual governo não deve protelar ações agudas, como parece estar pensando fazê-lo, pois mais tarde será muito difícil frear o trem inflacionário. Corremos o risco de perdermos, em pouco tempo, tudo o que conseguimos conquistar em termos de estabilidade e avanços econômicos nos últimos 17 anos.
Mudanças no comércio mundial
A China começa a realizar um movimento que poderá mudar completamente as características do comércio mundial. Diante de uma demanda interna que explode (entre janeiro e agosto de 2010 o consumo de roupas e sapatos cresceu 23,7% no país asiático) estaria levando os chineses a produzir para o seu mercado interno, deixando de lado boa parte das exportações. Afinal, os preços de fabricação internos, desde 2008, cresceram entre 30% e 40% naquele país, estimulando os empresários locais a buscar mão-de-obra em países vizinhos, tais como o Paquistão, o Camboja e o Vietnã. Além disso, os chineses aumentam os investimentos externos em sistemas de produção que venham a auxiliar no seu abastecimento interno. É o caso da maior indústria de trituração de soja do mundo que está sendo construída em Barreiras (BA).
Isso obriga os chineses a importarem cada vez mais matérias-primas, e também retira parte dos produtos chineses do mercado mundial, deixando espaço para os concorrentes de outros países. Ao mesmo tempo, o custo de produção subindo internamente, deixa os produtos chineses menos competitivos no exterior, abrindo um flanco em favor de produtos oriundos de outros países, inclusive do Brasil, na busca por espaço no mercado internacional.
Cresce o consumo chinês
O crescimento da economia chinesa, que leva às transformações anteriormente citadas, se deve a um forte crescimento do consumo varejista local. Tais vendas cresceram 18,4% em 2010, após terem aumentado 15,5% em 2009, ano em que o mundo vivia o pior da crise econômico-financeira. Somente o consumo interno, portanto, contribuiu em 3,9 pontos percentuais no crescimento de 10,3% do PIB chinês no ano passado. Todavia, apesar do crescimento do consumo interno, o mesmo ainda representa pouco na economia chinesa.
Apenas 35% do PIB, ou seja, duas vezes menos que nos EUA. Isso porque, assim como no Japão e outros países asiáticos, a cultura chinesa é de economizar, fato que eleva a taxa de poupança local a níveis recordes (mais de US$ 2 trilhões). Pelo sim ou pelo não, o fato é que o governo chinês, para o período 2011-2015, decidiu reequilibrar a economia local privilegiando a demanda interna. Mesmo porque preocupa a baixa demanda mundial, em razão da crise internacional que perdura, fato que tende a reduzir as exportações chinesas. Mas existem algumas dúvidas importantes a respeito desta nova estratégia. Em primeiro lugar, o consumo chinês, assim como no caso brasileiro, nos dois últimos anos foi puxado quase que exclusivamente pelas medidas de apoio estatais. Agora que o Estado anuncia a retirada deste apoio artificial, como se comportará a demanda daqui em diante? Em segundo lugar, o aumento do consumo reside na capacidade de aumento salarial do país. Ora, o governo chinês vem aumentando substancialmente o salário mínimo nos últimos anos.
Em Pequim, no início deste ano o mesmo foi reajustado em 20%. Obviamente, deve-se considerar que a base de partida é bastante baixa. Ao mesmo tempo, a renda agrícola cresceu 10% em 2010. Sem falar em maiores despesas públicas em favor dos aposentados. Com isso, nos próximos 10 anos o número de consumidores da classe média e superior deverá passar de 150 para 400 milhões de pessoas, segundo o Boston Consulting Group.