O Impacto do Capital Especulativo: o Caso da Soja
Particularmente de 2000 para cá, o mercado mundial passou a conviver mais intensamente com um novo elemento nas Bolsas de Mercadorias e Valores. Trata-se do capital financeiro especulativo, que nada produz, porém, traz enormes distúrbios à economia real. A crise iniciada em 2007, considerada a maior crise mundial desde 1929, teve na sua origem o resultado das ações deste capital especulativo. Tanto é verdade que as principais economias do mundo, reunidas em torno do G20 (Brasil inclusive), definiram como essencial, para sair da crise, colocar um novo sistema de regulação deste capital especulativo. Para se ter uma ideia concreta de como isso vem alterando as relações comerciais mundiais, atingindo em cheio a economia real e tornando artificiais os preços internacionais, vejamos o comportamento dos preços da soja no Brasil nestes últimos 10 anos. Em 2000, o preço médio do saco de soja vendido em lotes, no mercado gaúcho, foi de R$ 18,56. Em dólares, o mesmo saco valia US$ 9,46, diante de um câmbio a R$ 1,96. Em agosto de 2010, a média do preço da soja ficou em R$ 37,99/saco no mesmo mercado. Enquanto isso, o preço do saco de soja em dólares disparou para US$ 21,22. Ao mesmo tempo, o câmbio médio de agosto ficou em R$ 1,79. Assim, enquanto o preço nominal da soja, em reais, subiu, ponto a ponto, 104,7%, o preço em dólares aumentou 124,3%. Ao mesmo tempo, o real se sobrevalorizou 8,67%. Dito de outra maneira, não foi o câmbio que provocou a disparada dos preços da soja em dólares.
O Impacto do Capital Especulativo: o Caso da Soja (II)
O fator principal se encontra no comportamento das cotações da oleaginosa na Bolsa de Chicago (assim como se nota em todas as outras commodities). No período considerado, a média do bushel de soja em Chicago passou de US$ 4,97 em 2000, para US$ 9,71 nos oito primeiros meses de 2010. Em outras palavras, um aumento de 95,4%. Dito de outra maneira, no mercado mundial, base EUA, onde a inflação do período considerado foi de 26% (IPC EUA, cf. FGV), a soja se valorizou 3,7 vezes mais. Ora, não houve nenhum motivo plausível na economia real que justificasse tamanha disparidade. O que houve é a maciça presença do capital financeiro especulativo, agora também nas bolsas de mercadorias, elevando artificialmente os preços dos produtos primários e encarecendo o alimento mundial. Nessas condições, precisamos ficar muito atentos, pois dois cenários se desenham: ou o processo se reverte e os mercados mundiais voltam a patamares mais racionais, na medida em que o capital financeiro passa a ser mais bem regulado, ou entramos definitivamente em um novo patamar de preços internacionais, artificializado. Neste último caso, ficará difícil esperar que haja uma sensível desvalorização do real perante o dólar, já que o jogo cambial acaba compensando parcialmente a irracionalidade dos preços mundiais das commodities, impedindo que os preços internos disparem em demasia. Isso explica porque, em reais, a soja brasileira não subiu muito além da inflação oficial do período, que foi de 90,2% (IPCA, cf. FGV), se comparada com o ganho real obtido na Bolsa de Chicago.
O Déficit Previdenciário Cresce
Para atender o reajuste de 7,72% para as aposentadorias acima de um salário mínimo, e a antecipação do 13º salário para aposentados e pensionistas, o governo estourou mais um pouco o déficit da previdência social brasileira. O mesmo aumentou em 111,2% em agosto, ao ser comparado a julho, acumulando no ano um rombo de R$ 30,7 bilhões (apenas 1,3% inferior ao mesmo período do ano passado). Não é de hoje que se sabe da necessidade do sistema previdenciário passar por uma ampla reforma, que o torne viável. Infelizmente, nada tem sido feito neste sentido nos anos recentes e esse é mais um desafio ao futuro governo. O agravante é que, numa perspectiva de longo prazo, as coisas poderão ser infinitamente piores já que apenas 4% da população brasileira possui uma previdência privada complementar. Assim, diante da falência do sistema público, é de se imaginar o caos social que teremos logo aí adiante se nada for feito para corrigir a estrutura da Previdência Social brasileira, dentro de um contexto de reformas gerais.
O Superávit Primário Diminui
Como era esperado, as promessas oficiais também não estão sendo cumpridas no que diz respeito ao superávit primário brasileiro. Lembramos que, desde janeiro de 1999, quando o Plano Real sofreu uma guinada importante, buscando um ajuste aos novos desafios econômicos mundiais, um tripé básico passou a balizar a economia nacional: câmbio flutuante, metas inflacionárias e superávit primário. O fato de o governo estar falhando, nos últimos tempos, com este terceiro eixo do tripé coloca em risco a estabilidade futura da economia. Para se ter uma ideia, tal superávit foi estabelecido pelo próprio governo em 3,3% do PIB em 2010. Ora, até agosto inclusive, no acumulado de 12 meses, o superávit alcança tão somente 2,01% do PIB. Nestas condições, será difícil que o setor público diminua seus gastos visando melhorar o superávit. Especialmente porque nota-se um aumento considerável dos mesmos, puxados inclusive pelo momento eleitoral do país. Mais um motivo para se esperar arrocho econômico do futuro governo.