A presidente Dilma está diante de um grande dilema. No curto prazo, conter a alta inflacionária, sem elevar o juro básico (Selic), pelo menos no imediato. No longo prazo,realizar as reformas estruturais, pois estruturalmente a economia não está bem. Assim, de imediato, terá que adotar medidas de cortes profundos nos gastos públicos, a começar pelo Orçamento da União para 2011. No médio prazo, realizar as reformas do Estado, algo que o governo Lula, mesmo com forte popularidade, não foi capaz de fazer. Pelo sim ou pelo não, para usar uma expressão do economista Edmar Bacha, o país está no limite, “...pois a produtividade do país ainda é fraca, o setor público ainda abocanha uma parcela muito grande do PIB e não entrega de volta no mesmo nível, o sistema político brasileiro é um horror, o sistema tributário é uma vergonha, e a Previdência, se não for reformada, vai quebrar o país em 2050.”. Nada diferente do que cansamos de aqui escrever! Sem resolver pelo menos esses gargalos, de nada terá adiantado o esforço em melhorar a renda da população e tornar o Brasil um país de classe média, pois a situação será passageira, e a estrada para um melhor desenvolvimento será truncada logo adiante. Assim, o Brasil inicia 2011 com uma desaceleração da economia, com uma inflação muito superior ao centro da meta, com perspectiva de alta nos juros já em janeiro, assombroso aumento no déficit em conta corrente, e torcendo para que haja, finalmente, algum controle de gasto público, como a presidente prometeu em sua posse.
Dito de outra maneira, a herança econômica do governo Lula não é boa, embora os avanços sociais importantes. Ou seja, pela aceitação que o ex-presidente possuía, ele poderia ter feito muito mais e melhor, pensando no longo prazo e de forma estrutural. Tanto é verdade que, em se analisando o período dos dois mandatos (2003 a 2010) e não apenas o último ano do seu governo (cf. Fernando Ferrari Filho, da UFRGS), tem-se que a inflação média ficou em 5,8% ao ano (acima da média dos países emergentes e de nossa meta inflacionária); a taxa média de crescimento do PIB foi da ordem de 4%, com grande volatilidade e longe de ter um comportamento constante; e a taxa média de desemprego foi de aproximadamente 9,2% ao ano, portanto, longe do alardeado pleno emprego deste final de 2010. Sem falar que as projeções para o novo ano dão conta de que a balança de transações correntes terá um déficit superior a US$ 60 bilhões (o mais elevado desde que o Plano Real foi lançado, em 1994). Entre 2008 e 2010 tal déficit acumula US$ 102,5 bilhões. E isso tudo, com o investimento público da União, no governo Lula, ficando, na média, abaixo de 1% do PIB. Ao mesmo tempo, o gasto do governo central chegou a 22,3% do PIB em 2009, contra 13,7% em 1991. Assim, pelo menos duas lições podem ser tiradas deste quadro nacional recebido por Dilma Rousseff: 1) o legado econômico do governo Lula compromete a estabilidade macroeconômica do país; 2) o novo governo terá que partir para o arrocho econômico se quiser colocar novamente o país nos trilhos da estabilidade estrutural.