Inflação disparada
O fato de o governo ter continuado a gerar as condições para um consumo mais aquecido, somado ao novo aumento mundial no preço de muitas commodities agrícolas e a uma decisão de não mais aumentar a taxa de juros (Selic), em função das eleições, começa a cobrar seu preço sobre a economia nacional. A inflação termina o ano em alta significativa! O IGP-M de novembro atingiu a 1,45%, acumulando no ano 10,56%. Pela primeira vez, desde meados de 2008, assistimos a este índice superar os 10% no acumulado anual. E o pior ainda é que até julho deste ano o acumulado de 12 meses chegava a 5,79%, enquanto agora em novembro o mesmo alcança 10,27%. Ou seja, a inflação acumulada praticamente dobrou em quatro meses! Já o IPCA para 2010 está agora projetado em 5,72%, superando em 27,1% a meta inflacionária oficial, que é de 4,5% para este ano. E o pior, mais uma vez, é que para 2011 a projeção aponta para 5,2%, enquanto a meta permanece em 4,5%. Desde 2005, será a segunda inflação anual mais elevada. Tal realidade obriga o governo a partir, mais uma vez, para o aumento na taxa básica de juros (Selic). Se a mesma não for realizada já nesta reunião de dezembro do Copom (última do atual mandato), e que inicialmente não está prevista, obrigatoriamente terá que ser feita na primeira reunião do Copom sob novo governo e presidência do Banco Central. A dúvida que paira, nesse momento, é se o novo titular do BC terá força política para realizar o que é necessário, diante de um contexto de novos ministros que, até o momento, não se preocuparam em conter o gasto público. No curto prazo, não há realmente outra solução. Ou aumenta-se o juro, freando o aumento de preços, ou um dos pilares do tripé que sustentou a estabilidade da economia continuará a fazer água perigosamente, comprometendo rapidamente nossa capacidade de resistência, até aqui positiva, diante da crise mundial, e mesmo para os anos futuros.
2011 será de arrocho
A julgar pelas projeções até aqui realizadas pelo mercado, e pela necessidade de aumento no juro básico, está cada vez mais evidente que o próximo ano será de freada geral na economia. Além da Selic se elevar dos atuais 10,75% para, pelo menos, 12,75% ao ano, o mercado estima que o PIB nacional ficará em apenas 4,5% contra 7,6% neste ano. Isso deverá gerar desemprego parcial, que tende a atingir uma classe trabalhadora que está fortemente endividada, gerando uma inadimplência previsível já há alguns meses. Não é por nada que, sentindo as dificuldades, a população pretende usar boa parte do 13º deste ano para saldar dívidas e recuperar o crédito. Tomará que o chamado “décimo” seja suficiente, pois senão 2011 trará problemas para muitos. Além disso, o mercado não projeta grandes melhorias cambiais, as quais poderiam favorecer as exportações. O câmbio está sendo projetado em R$ 1,75 para o final do próximo ano. Com isso, a balança comercial verá seu superávit recuar de metade, passando de US$ 16 bilhões neste ano para apenas US$ 8 bilhões em 2011. Enfim, o déficit na conta corrente chegaria a US$ 68,1 bilhões, após US$ 50 bilhões em 2010. Ou seja, um aumento de significativos 36,2% em um ano! Para se ter uma ideia do desastre, entre 2003 e 2007 esta balança acusou saldo positivo e, desde 1995, quando o Plano Real passou a vigorar efetivamente o pior resultado obtido nesta balança havia sido de US$ 33,4 bilhões em 1998. Não é por nada que até mesmo o ministro Mantega, reconduzido ao Ministério da Fazenda, muda o discurso e prega austeridade nos gastos públicos para o próximo ano. Na verdade, não há muita saída, já que a herança do governo Lula, neste aspecto, é amarga e de difícil digestão. Ou se arrocha ou estoura a economia! O tempo do abuso nos gastos e das benesses, tendo como pano de fundo a crise mundial, passou! Começa o tempo de a sociedade pagar a conta, como se previa. Quanto mais cedo começar o ajuste, mais chance teremos de corrigir a rota com menos custos sociais.
Balança comercial confirma recuo
Passados 11 meses do ano, os números do comércio exterior brasileiro indicam efetivamente que teremos um importante recuo no saldo comercial. Atualmente o mesmo está em US$ 14,93 bilhões (até um pouco mais elevado do que se previa em meados do ano), porém, mesmo assim 35,4% abaixo do saldo registrado na mesma época do ano passado. E isso que 2009 foi um dos anos mais recessivos das últimas décadas na economia mundial! Nesse contexto, as exportações registram US$ 181 bilhões, com aumento de 30,7% sobre o ano anterior, porém, as importações disparam para US$ 166,06 bilhões nos primeiros 11 meses do ano, acusando um crescimento de 43,9% sobre o mesmo período de 2009. Nesse contexto, perdem os exportadores nacionais e perdem as empresas brasileiras voltadas ao mercado interno, pois se veem confrontadas a uma concorrência de produtos importados cada vez maior e a bons preços. E a tendência cambial, pelo menos por enquanto, não indica melhoria nesse quadro para 2011, como ficou evidente no comentário anterior.