A crise e os erros de avaliação
Temos procurado alertar para o retorno de euforias exageradas em relação ao retorno à normalidade da economia mundial e brasileira, a partir da crise econômico-financeira que o mundo vive desde meados de 2007, com seu agravamento em setembro de 2008. O assunto é muito mais sério do que se pode imaginar e já começa a provocar consequências em nossa economia regional e estadual pelo fato de muitos setores cometerem erros de avaliação a respeito. Um destes setores é o avícola!
O setor avaliou que a saída da crise seria mais cedo e que ainda no final do primeiro semestre o Brasil e o mundo retomariam seu crescimento econômico sustentado. Ora, não é isso que ocorre, embora alguns sinais de melhoria, e dificilmente o quadro econômico exuberante, de antes da crise, retornará após a mesma.
Além disso, a nova sobrevalorização do Real veio complicar ainda mais o já difícil quadro de exportação. Assim, os criadores de frango brasileiros e gaúchos enfrentam agora uma queda importante em seus preços médios do quilo vivo negociado, com os mesmos recuando de R$ 1,70 para até R$ 1,35, dependendo da região.
E o quadro não deverá melhorar antes de dezembro, pelo menos. Isso porque o setor aumentou para 500 milhões de unidades o alojamento de pintos em agosto, quando deveria tê-lo reduzido. Assim, a oferta de carne de frango continuará crescendo diante de exportações em dificuldades (a disponibilidade interna no Brasil, para 2010, deverá subir para 42,1 quilos/habitante, contra 39,6 quilos em 2008 e 2009, já que a produção de carne de frango tende a chegar a 11,6 milhões de toneladas no ano que vem, para uma exportação estacionada em 3,6 milhões de toneladas).
Assim, agosto foi o pior mês de preços para o criador de frango no país, com a média caindo para R$ 1,49/quilo vivo, contra R$ 1,94 no mesmo mês do ano de 2008. E o agravante nisso tudo é que, para recuperar os preços, provavelmente as integradoras terão que reduzir os alojamentos, deixando muitos criadores sem produzir por alguns meses.
SELIC é mantida
Conforme o mercado esperava, a taxa básica de juros no Brasil, a Selic, foi mantida em 8,75%. A mesma deverá permanecer assim pelos próximos meses, podendo mesmo iniciar 2010 nestes patamares (no máximo se pode esperar uma redução de 0,25 pontos percentuais em uma das próximas reuniões do Copom). Isso implica dizer que o juro real de nossa economia, em 2009, deverá subir um pouco no final do ano, já que a inflação oficial (IPCA) acusa uma tendência de baixa, devendo ficar ao redor de 4,2%.
Assim, o juro real nacional fica hoje em 4,55% ao ano, contra 4,25% projetado há um mês. O comportamento do juro básico nacional não se traduz apenas pelo movimento inflacionário, fato que explica porque não houve novas baixas na Selic na reunião desta semana. O mesmo também está atrelado à dívida pública nacional. Como o governo não consegue (ou deseja) reformar o Estado brasileiro, enxugando suas despesas (pelo contrário, continua aumentando-as), ele financia seus gastos vendendo títulos públicos, boa parte indexados na Selic.
Ora, reduzir em demasia a mesma significa correr o risco de não vender a contento tais títulos e, com isso, não ter como financiar o custo estatal (aliás, a dívida interna brasileira já ultrapassa a R$ 1,3 trilhão e continua aumentando). Desta forma, pela ineficiência na gestão pública, o conjunto da sociedade não consegue ter acesso a dinheiro mais barato, sendo impedida de produzir e consumir mais e, por extensão, freia o crescimento da economia num momento tão necessário para sua recuperação.
É isso que queremos dizer quando comentamos que, embora tenhamos enfrentado bem a atual crise mundial, poderíamos ter passado por ela ainda bem melhor equipados e com muito menos efeitos negativos do que na realidade está acontecendo.
Novos índices agrários
É verdade que o setor primário gaúcho e brasileiro melhorou sua performance e, hoje, consegue obter uma produtividade média muito superior ao que se tinha nos anos de 1970. Por esse aspecto, isso justifica a revisão para cima dos índices agrários propostos particularmente pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Todavia, esse ainda é um critério muito fraco para justificar desapropriações de terras para fins de “reforma agrária”. Isso porque, se realmente não há ideologia no debate atualmente desenvolvido no país a respeito, os que primeiro seriam atingidos pelas novas regras se encontram nos assentamentos já realizados em terras ditas, na ocasião, serem improdutivas.
Afinal, as pessoas ali assentadas dificilmente estão atingindo os índices propostos. Sem falar que a grande maioria nem oriunda do meio rural tem sido nos últimos tempos. Desta forma, antes de estabelecer novos índices de produtividade, embora o procedimento tenha sua coerência, o Ministério em questão deveria verificar que tipo de famílias está, como é dito, aguardando terras. Por outro lado, que estrutura e nível de crédito o Estado estaria disposto a elas destinar, e com qual organização e exigências.
Assim, aumentar os índices agrários apenas porque a pressão política de grupos sociais, constituídos em sua grande parte por pessoas que não se identificam com o meio rural, em vésperas de eleições presidenciais, perde a credibilidade, pois o caráter técnico do processo acaba dando lugar à ideologia.