Crise Mundial: os US$ 600 bilhões
A decisão do Banco Central dos EUA (FED) em injetar US$ 600 bilhões na economia daquele país até junho de 2011 (US$ 75 bilhões por mês) causou um novo estrago na economia internacional nesta semana, com repercussões futuras. Diante de uma economia que não decola, o governo Obama, na falta de outras possibilidades (o juro já está ao redor de 0% ao ano), apela para a oferta maciça de dinheiro ao mercado, visando aumentar o consumo e, com isso, a própria inflação interna (hoje ao redor de 1% ao ano). Essa medida atinge o mundo inteiro, a começar pelo Brasil. Ou seja, a crise continua presente no cenário de nossa economia e fazendo estragos. Em primeiro lugar, a maior oferta de dólares no mercado, já encharcado de moeda estadunidense, causa o efeito contrário àquele que o mundo vinha tentando conter: o dólar perde ainda mais valor. Isso explica a imediata valorização do Real, com o retorno à cotação de R$ 1,67 por dólar. Em segundo lugar, torna ainda mais importante a reunião do G20 na Coreia do Sul, prevista para os dias 12 e 13 deste mês de novembro, onde o assunto central é exatamente conter a queda do dólar perante as moedas mundiais (exceção feita ao Yuan chinês, o qual é desvalorizado deliberadamente pelo governo local). Em terceiro lugar, haverá mais entrada de dólares em economias como a brasileira, elevando as cotações das ações, fato que ficou evidente na reação da Bovespa no final desta semana. Portanto, quem tem ações compradas pode tirar proveito deste movimento geral.
Crise Mundial: os US$ 600 bilhões (II)
Todavia, estamos mais uma vez diante de um movimento especulativo, causado pela medida unilateral dos EUA, fato que deve alimentar ainda mais o surgimento de bolhas que, ao estourarem, causarão estrago ainda maior na economia mundial e nacional. Enfim, a injeção de mais dólares na economia estadunidense turbinou mais um pouco o valor das commodities nas bolsas de mercadorias, a começar por Chicago. Assim, o preço da soja, por exemplo, que já vinha em ascensão desde julho/agosto, encontrou um novo elemento especulativo para subir, se aproximando rapidamente de US$ 13,00/bushel neste início de novembro. Ou seja, o mercado das commodities não está reagindo às leis da oferta e demanda (mesmo porque, se assim o fosse, as cotações teriam que estar em acentuado recuo) e sim à presença importante de dólares no mercado. Ora, a moeda estadunidense perdendo valor, torna-se necessário elevar artificialmente os preços das commodities para compensar os menores ganhos devido ao câmbio desfavorável. Nesse sentido, o petróleo, por exemplo, superou a US$ 85,00/barril nesta semana. Estamos, portanto, diante de mais um fator de distúrbio internacional, resultado da crise mundial que já dura mais de três anos. Nesse contexto, é preciso muita atenção, pois a variação dos preços das commodities e das ações em bolsas de valores será intensa e, assim como subiu agora, pode muito bem despencar rapidamente logo aí adiante.
A continuidade negativa
Espera-se do novo governo eleito que o mesmo mantenha a continuidade da política de estabilização econômica, sustentada no tripé meta inflacionária-câmbio flutuante-superávit fiscal; que mantenha as melhorias sociais, não mais via aumento do déficit público mas sim via reformas profundas na estrutura do Estado nacional; que incorpore um novo projeto de recuperação de nossa educação, a começar pelo ensino fundamental e médio (aliás, nesse quesito, o recente Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD nos coloca em posição difícil perante o mundo, como já se sabia internamente) e assim por diante. Infelizmente, o que se nota nesse momento é a tendência do novo governo trilhar o caminho da continuidade negativa, que o interessante programa bolsa-família acabou escondendo para uma grande maioria de brasileiros. Eleita sem um programa definido e sem preparo político algum, a nova presidenta começa a enfrentar sérios problemas já em sua primeira semana pós-eleição. Nesse contexto, entra em jogo a recuperação da CPMF, travestida com outro nome e que já havia sido tentada pelo governo Lula. É verdade que a saúde pública nacional está péssima e precisa de recursos. Todavia, não é criando mais um imposto que isso se resolverá (na antiga CPMF, menos de 30% dos recursos arrecadados eram destinados à saúde, sendo o restante desviado para outras finalidades).
A continuidade negativa (II)
Os serviços públicos são péssimos não pela falta de recursos, e sim pelo mau uso destes recursos, além da existência de uma estrutura estatal pesada e ultrapassada. A corrupção, alimentada pela burocracia, e o inchaço do Estado, desviam o dinheiro do povo para práticas irresponsáveis, quando não ilícitas. Assim, antes de criar uma nova CPMF (embora tecnicamente, como imposto, é um dos mais justos), o novo governo deveria se debruçar nas reformas, a começar pela tributária, fazendo o dever de casa que é o ajuste das contas públicas, acompanhado de maior responsabilidade no uso das verbas estatais. Ou, pelo menos, indicar a eliminação de outros impostos e taxas em troca do dito “imposto do cheque”. Sabendo que o assunto é politicamente ruim, a nova presidenta, ao falar da reedição da CPMF, coloca o assunto nas costas dos governadores dos Estados os quais, em grande parte, infelizmente também estão longe de demonstrar um senso prático da gestão pública, preferindo se contentar em arrecadar mais, sempre mais, sem cortar despesas. Como se nota, a herança recebida do governo Lula está longe de ser “um mar de rosas”, como, aliás, os mais informados já sabiam. O reflexo desta realidade é que o novo governo, antes mesmo de assumir, já dá sinais de começar mal o seu mandato, mesmo que a intenção possa ter sido “largar um balão de ensaio” para ver como a sociedade reage.