Saldo Comercial Continua Marcando Passo
Apesar da melhoria dos números das exportações e importações (valores maiores do que os registrados em 2009), a balança comercial brasileira, até o dia 05/09 apontava para um saldo comercial na mesma linha do que o previsto no início do ano. Em outras palavras, um saldo comercial que caminha para finalizar o ano ao redor de 50% abaixo do registrado em 2009, auge da crise econômica mundial. Efetivamente, as exportações nacionais, até a data indicada, apontavam um valor acumulado de US$ 128,71 bilhões, contra US$ 110,67 bilhões no mesmo período do ano anterior. Em outras palavras, as exportações brasileiras aumentaram em 16,3% neste ano de 2010. Por sua vez, as importações continuaram crescendo mais, alcançando um total de US$ 116,89 bilhões até a data indicada, contra US$ 80,32 bilhões em igual período do ano passado. Em outras palavras, um aumento de 45,5% entre um ano e outro. Nota-se que a distância percentual entre exportações e importações vem crescendo com o avanço do ano, o que é um dado preocupante. Assim, o saldo da balança comercial brasileira, até o dia 05/09, atingia a US$ 11,82 bilhões neste ano de 2010, contra US$ 20,35 bilhões em igual período do ano passado. Uma diferença de 41,9%! E isso que os preços internacionais de boa parte dos produtos negociados pelo Brasil melhoraram neste ano, particularmente no que diz respeito às commodities. A explicação para tal comportamento se encontra na continuidade da crise econômica nos principais países do mundo (EUA, União Europeia e Japão), importantes compradores de nossos produtos, mas principalmente no comportamento cambial do Real em relação ao Dólar dos EUA, na medida em que nossa moeda continua se sobrevalorizando (neste momento ao redor de R$ 1,72). Ora, como sabemos, moeda forte estimula as importações e desestimula as exportações, comprometendo a indústria exportadora nacional em geral. Da forma como as coisas estão, apenas um aumento no volume exportado, fato que requer ainda maior competitividade de nossos produtos, poderia provocar um início de reversão deste quadro. Um desafio difícil de ser vencido no curto prazo!
Câmbio se Mantém Sobrevalorizado
A afirmação anterior se deve ao fato de que o Brasil voltou a ser atrativo ao capital internacional, principalmente o especulativo, após um momento de dúvidas durante o período mais agudo da crise mundial (último trimestre de 2008 e primeiro trimestre de 2009). Assim, o Real saiu de R$ 1,56 por um dólar, no final de julho de 2008, para R$ 2,44 no início de março de 2009, voltando agora (início de setembro de 2010) a R$ 1,72 (pela paridade de poder de compra, para manter o câmbio nos mesmos níveis de janeiro de 1999, quando passamos ao câmbio flutuante, nossa moeda deveria estar valendo hoje ao redor de R$ 1,90). Essa entrada forte de dólares no país se dá pela continuidade da crise em parte da economia mundial; pelo aumento de nosso juro básico (Selic) nos últimos meses, em relação aos juros das principais economias do mundo; e pela estabilidade que a economia e o quadro políticonacional apresentam nos últimos 16 anos. Desta forma, a redução do saldo comercial e uma possível estagnação nos investimentos externos diretos (menos entrada de dólares no país) não têm sido suficiente para contrabalançar a entrada do capital especulativo no Brasil.
Câmbio se Mantém Sobrevalorizado (II)
Todavia, este capital não tem procurado a Bolsa de Valores (Bovespa), pois a mesma continua registrando uma performance negativa em 2010. O referido capital está vindo em busca dos títulos públicos emitidos pelo governo brasileiro que, atualmente, vem gerando uma aceleração na dívida interna nacional (projeta-se terminar o ano com tal dívida alcançando R$ 2,0 trilhões ou US$ 1,16 trilhão ao câmbio de hoje, lembrando que a dívida externa brasileira gira ao redor de US$ 200 bilhões). Ou seja, a ineficiência oficial em ajustar as despesas do Estado brasileiro às receitas existentes, está valorizando em demasia a moeda nacional e penalizando o setor produtivo exportador de um lado, e o setor produtivo interno, ao favorecer importações artificialmente mais baratas. O problema ficará mais evidente e agudo quando o mercado interno frear o seu consumo e dependermos do mercado externo para melhor viabilizarmos a produção nacional. E a solução não deve passar pela mudança do sistema de câmbio flexível (ou flutuante), adotado pelo Brasil desde janeiro de 1999, o qual é um instrumento positivo de gestão macroeconômica. A solução deve, urgentemente, passar pelas reformas do Estado, e a redução do inchaço do mesmo, a fim de que este possa dispensar o artifício da venda de títulos públicos como elemento central para sobreviver. A questão é: que governantes terão a capacidade e a vontade disto realizar, colocando o país em um novo patamar de gestão pública, com uma consequente melhoria no potencial de desenvolvimento da Nação?