O esforço e o problema
O Brasil conseguiu enfrentar razoavelmente bem a crise mundial graças a estabilidade estrutural de sua economia, conquistada nos últimos 15 anos, e graças a ação do governo em injetar recursos públicos na economia, seguindo a cartilha mundial. Afinal, no auge da crise o capital privado recuou, não havendo crédito no mercado para tocar a economia. O resultado está nos números que começam a surgir, indicando uma retomada, mesmo que lenta, da economia, enquanto a maioria dos países ainda vislumbra um horizonte de dificuldades maiores.
O problema é que para chegar a tais resultados o país gastou proporcionalmente muito mais do que os países ricos, criando um potencial problema de endividamento, o qual poderá comprometer a atividade econômica no futuro. O esforço de enfrentamento da crise levou o país a gastar 5,6% do PIB em incentivos fiscais, devendo gastar ainda mais, pois a crise ainda não terminou.
Aliás, esse foi o principal recado dado pelos presidentes dos Bancos Centrais dos principais países do mundo, reunidos na Basileia (Suíça) no primeiro final de semana de setembro. Assim, o impacto nas contas públicas, de tamanho esforço, surgirá em 2010. Os governos esperam que a retomada do crescimento da economia neutralize o impacto do déficit gerado.
O problema é que tal retomada tende a ser menor do que o registrado nos últimos anos pré-crise. Assim, se os pacotes econômicos dos governos continuam sendo necessários, igualmente é evidente que se cristaliza a geração de um problema paralelo e importante que pode alimentar uma segunda onda recessiva.
Além disso, o mundo ainda não sabe qual é o tamanho dos prejuízos que o setor bancário vem sofrendo com a crise e, paralelamente, não tem segurança de que a economia poderia caminhar normalmente se os pacotes de incentivos públicos vierem a ser retirados.
Em outras palavras, o caminho para sair da crise, em termos mundiais, ainda é longo, podendo mesmo consumir o ano de 2010.
Superávite comercial se mantém
Os resultados acumulados da balança comercial brasileira, incluindo já a primeira semana de setembro, indicam a tendência já desenhada há mais tempo. O superávit comercial aumenta, porém, os negócios com o mercado mundial diminuem sensivelmente.
Assim, o saldo comercial da primeira semana de setembro ficou positivo em US$ 480 milhões. No ano, o superávit alcança US$ 20,45 bilhões, resultado de exportações em US$ 100,67 bilhões e importações em US$ 80,22 bilhões. O superávit registra um crescimento de 18,7% no ano, enquanto as exportações e importações acusam um decréscimo de 24,8% e 31,3% respectivamente.
Ou seja, não estamos negociando mais com o exterior e sim estamos importando bem menos do que exportando, mesmo tendo um câmbio favorável para as compras externas. Isso requer uma compensação junto à demanda interna, senão o desemprego seria muito maior.
Tal compensação só vem pela oferta de crédito, a qual é concretizada pelo recurso público, que encontra seus limites no endividamento estatal. Ou seja, mesmo respirando melhor, não é para amanhã que a economia poderá caminhar pelas próprias pernas.
China pressionada pela OMC
É sabido que a prática comercial da China é contrária as leis do livre-comércio. Sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), portanto, tenderia a lhe causar dissabores no contexto dessa lógica protecionista. De um lado, o governo chinês recebe a pressão da OMC para abrir seu mercado, particularmente o setor cultural e de audiovisual.
De outro lado, os demais países membros, em nada sendo feito pela Organização, começam a adotar medidas protecionistas contra os produtos comprados da China. Nos EUA, por exemplo, os sindicatos e setores industriais ligados ao automóvel exigem que o governo Obama taxe em 55% os pneus importados do país oriental.
Aqui no Brasil, o governo Lula acaba de anunciar uma nova taxa sobre o calçado chinês. Prevê-se uma alíquota específica, por seis meses, no valor de US$ 12,47 por par de calçado, além do imposto de importação de 35% já existente. Com isso, o preço final do calçado chinês subiria para US$ 21,96 o par (três vezes o preço original), o que inviabilizaria, segundo analistas do setor, cerca de 90% das importações de calçados procedentes da China.
A alegação brasileira é que o produto chinês está chegando ao Brasil a preço de “dumping”, ou seja, vendido aqui abaixo de seu preço de custo na origem. O problema é que medidas restritivas ao comércio, embora justificadas, acabam sendo nefastas à recuperação econômica global no longo prazo.
Todavia, nada indica que a China irá aceitar as exigências da OMC e modificar sua forma de encarar o comércio internacional.
Trigo em dificuldades
No momento em que a colheita de trigo no país está prestes a começar, via Paraná, o mercado nacional assiste a uma contínua queda nos preços pagos ao produtor nacional. Nem mesmo a menor qualidade da safra passada e a iminente quebra da safra atual, devido as intempéries, têm provocado reação nos preços.
Tampouco a certeza de que a futura safra argentina será de apenas 7,5 milhões de toneladas (uma das mais baixas de sua história recente), após ter semeado a menor área em 100 anos, resulta em possibilidade concreta de recuperação dos preços do cereal nacional. O motivo é que os preços mundiais do trigo caíram vertiginosamente, saindo de mais de US$ 12,00/bushel em fevereiro de 2008 para apenas US$ 4,32/bushel no fechamento de Chicago do último dia 10/09.
Soma-se a isso o fato da moeda brasileira ter voltado à casa de R$ 1,83 por dólar e temos preço na importação do produto da América do Norte, posto nos moinhos paulistas, ao redor de R$ 450,00/tonelada (R$ 27,00/saco) para o produto de qualidade superior.
Isso implica, ao produtor gaúcho hoje, um preço médio de apenas R$ 21,72/saco, sem tendência de muito melhorar antes de março próximo.