Congresso na contramão
É sabido que o Brasil precisa controlar os gastos públicos, enxugar a máquina estatal e reformar suas estruturas de funcionamento se quiser realmente ingressar num processo de desenvolvimento sustentável. É sabido, inclusive dito pelo governo eleito, que em 2011 haverá necessidade de frear os gastos em geral visando conter o aquecimento da economia, hoje acima das possibilidades de sustentação da estabilidade econômica. Pois bem, diante de toda esta realidade, mais uma vez o Congresso Nacional se dá o direito de ignorar nossas necessidades e “se dá” um reajuste salarial, extensivo ao Presidente da República, Vice-presidente e ministros, absurdo, colocando-o na contramão da realidade brasileira. O reajuste para deputados federais e senadores chega a 61%, porém, para o Presidente e Vice-presidente o mesmo chega a 133%, enquanto para os ministros o aumento atinge 149,5%. Ora, é verdade que os referidos cargos merecem uma remuneração condizente com a sua responsabilidade (hoje, deputados e senadores ganham mensalmente R$ 16.512,09, além de todas as demais comissões e verbas de representação; o Presidente da República apenas R$ 11.420,21; o Vice-presidente e os ministros R$ 10.748,43). Assim, é normal que haja um reajuste de seus salários, pois no geral estão muito baixos. Todavia, a grande maioria das pessoas que ocupam estes cargos, embora eleitas democraticamente, não trabalham para merecer nem mesmo o atual salário. E o povo, na hora do voto, ainda não aprendeu a avaliar isso, reconduzindo ineficientes e até mesmo corruptos aos cargos eletivos, sem falar em analfabetos.
Congresso na contramão (II)
Por outro lado, aumentar salários não significa extrapolar a realidade econômica do país. Ora, o aumento salarial proposto e que deverá ser aprovado (passada as eleições tudo é possível!) ultrapassa em muito a inflação do período. Ou seja, a alegação para tamanho reajuste é a de que não houve correção salarial para os mesmos desde 2007. Pois bem, a inflação brasileira, medida pelo indicador oficial IPCA, entre janeiro de 2007 e novembro de 2010 foi de apenas 20,9% (e se tomarmos como referência dezembro de 2007 a novembro de 2010, a mesma fica em somente 16,3%). Assim, nada justifica fazer o povo pagar um aumento salarial de três a oito vezes acima da inflação. Por outro lado, tal medida provoca um efeito cascata, pois permite, pela lei vigente, que os deputados estaduais e vereadores igualmente reajustem seus salários (os deputados estaduais gaúchos já protocolaram uma proposta de reajuste de seus salários que pode chegar a R$ 20.000,00 mensais). Os primeiros cálculos dão conta de que, no somatório geral, o custo total chegaria a superar R$ 2 bilhões anuais (somente para os 81 senadores, o custo adicional será de R$ 12 milhões anuais). Ora, num país onde faltam recursos para a saúde, educação, segurança, aposentadoria, infra-estrutura em geral, tal atitude é uma afronta à dignidade da população brasileira. Com um Congresso destes, onde apenas 35 dos mais de 600 membros teriam votado contra a medida, não se pode esperar desenvolvimento nacional. E o pior é que não se vê grandes mudanças no conjunto dos novos congressistas recentemente eleitos e que assumirão seus mandatos no início de 2011.
A China como balizador
A China irá continuar como balizador do comportamento imediato da economia em 2011. O comércio mundial, atualmente, depende em muito do mercado emergente chinês. Especialmente neste momento de crise global em que os países desenvolvidos não decolam. Ora, a forte volatilidade das bolsas de valores e da economia em geral, neste final de ano, encontra justificativa no comportamento da economia chinesa. O país asiático, às voltas com um crescimento que chega a ultrapassar os 11% ao ano, vê sua inflação disparar (o Brasil vive o mesmo problema) e, com isso, começa a tomar medidas de controle da economia. Em outras palavras, o objetivo é crescer “apenas” 8% em 2011, e segurar a inflação na meta estabelecida, cujo teto é de tão somente 3% ao ano. A simples possibilidade de um aumento nos juros internos chineses fez o mercado recuar nestes últimos dias. Afinal, aumento de juros significa menos consumo. E menos consumo na China significa menos vendas internacionais para aquele país. Como boa parte dos países não consegue elevar o consumo interno, diante da crise, encontra na demanda chinesa certa “tábua de salvação”. Se os chineses recuarem em suas importações, o comércio mundial diminuiria e os empregos, no resto do mundo, se reduziriam e a crise seria ainda mais alimentada. Nesse contexto, efetivamente as coisas tendem a ser mais difíceis em 2011. Para quem pensa que o Brasil está fora disso, esquece que o país chegou aos seus limites, dentro da atual estrutura que possui. Assim, o próximo ano deverá ser de um crescimento menor (redução de quase metade do atual); menos crédito disponível no mercado; menos geração de empregos; políticas públicas mais restritivas; real que se manterá sobrevalorizado; saldo comercial que igualmente irá recuar pela metade; inadimplência familiar em crescimento; consumo geral menor; e governo sem planejamento adequado para realizar as reformas necessárias.