A poupança e o imposto
Aquilo que se projetava começa a se confirmar! O governo brasileiro vai mesmo encaminhar projeto visando cobrar imposto da caderneta de poupança dos brasileiros. Mesmo que tal imposto incida a partir de R$ 50.000,00 em depósito, o que atingiria, segundo o próprio governo, apenas 1% da população nacional, o percentual de imposição (22,5%) demonstra a necessidade da União em arrecadar.
A alegação oficial é de que, diante do recuo dos juros, os aplicadores em fundos e outros ativos se deslocariam para a poupança já que a mesma ficou mais atrativa no momento. Soma-se a isso a intenção de aprovar um novo tipo de CPMF, a qual atingiria em 0,1% as movimentações financeiras da maioria dos brasileiros (estuda-se, por questões eleitorais, deixar de fora deste pagamento alguns segmentos sociais).
O grande problema nisso tudo continua sendo o mesmo. Por mais que se prometa e tente justificar, a realidade mostra que o dinheiro arrecadado vai para manter a máquina pública, ou seja, a estrutura do Estado, a qual continua inchando. Não se trata de aumentar impostos para melhorar os serviços públicos destinados aos cidadãos. Além disso, corre-se o risco de parte dos recursos serem desviados para ganhos particulares, como estamos cansados de ver nesse país, sem que nada aconteça.
Aliás, nesse sentido, o caso do Sr. Sarney e outros congressistas é lapidar. Nessas condições, não basta a economia se recuperar e voltar a crescer. É preciso uma urgente reestruturação do custo do Estado, onde as reformas assumem um papel preponderante.
Já está enfadonho falar disso, porém, o centro de nossos problemas de falta de desenvolvimento está particularmente na incapacidade de nossos governos em realizar o dever de casa, gastando somente o que realmente pode e tornando, com isso, o Estado um agente econômico eficiente e mais objetivo em suas ações sociais.
Enfim, esperemos que o governo retire tal imposto ou não o aplique caso se confirme que não há migração de recursos dos fundos para a poupança ou, como deverá ser o caso já em 2010, quando os juros voltarem a subir (projeta-se uma Selic em 9,75% para o final do próximo ano) tornando a poupança novamente menos interessante em relação aos juros das aplicações de renda fixa e fundos.
O Estado atual da crise
Passado um ano do estouro definitivo da atual crise mundial, momento em que a economia real igualmente passou a ser atingida, a situação pode ser resumida da seguinte forma: o sistema financeiro foi salvo, com alguns arranhões; a queda da demanda, que levou muitas regiões à recessão, foi amortecida pelo dinheiro público, fato que gerou um déficit público enorme, inclusive no Brasil; e os primeiros resultados positivos nos diferentes PIBs começam a surgir, porém, ainda bastante frágeis.
Por outro lado, se evidencia cada vez mais, embora a comparação possa ser justa, que a atual crise é muita mais complexa do que a de 1929. Ela estaria retratando duas rupturas principais, consequências da atual globalização.
A primeira diz respeito à revolução financeira ocorrida junto às Bolsas, dentro de uma nova governança mundial onde o novo modo de gestão deixou de lado o trabalho bem feito e a lealdade à empresa, em favor de se ganhar o máximo possível em menor espaço de tempo, abusando-se do instrumento especulativo e do menor controle estatal junto ao setor.
A segunda se origina na própria globalização atual, a qual leva os países emergentes a assumirem um papel mais preponderante no cenário econômico mundial, fato que leva a uma redução dos preços de bens industriais e a uma elevação no preço das matérias-primas.
O Estado atual da crise (II)
A isso tudo veio se somar a China que, por sua dinâmica produtiva e consumidora, a partir do momento em que ingressou na economia de mercado, gera desequilíbrios importantes, pois tem produzido uma enorme poupança, colocando no mercado uma liquidez sem precedentes.
A ponto de liderar o financiamento do trem de vida dos EUA, mesmo que este seja nocivo à economia global, pois está acima das possibilidades de pagamento do próprio país. Além disso, os recursos do petróleo inflacionaram o processo, fato que indica que os preços do “ouro negro” não podem se manter elevados, sob pena da economia mundial não corrigir o rumo de forma sustentável.
Em síntese: ou novas bolhas de crédito surgem para manter a economia no ritmo do pré-crise (os Estados se ocuparam disso até o momento, porém, o fôlego está terminando), ou o crescimento mundial será medíocre e não poderá absorver os excedentes chineses e petrolíferos. Nesse contexto, o que se denota é que os problemas que originaram a atual crise continuam a agir, sem que a maioria esteja se dando conta do que se arma para o futuro.
As eleições e a economia nacional
Estamos a praticamente um ano de novas eleições presidenciais no Brasil e muitos podem estar se perguntando se a economia não sofrerá abalos tipo os ocorridos em 2002, quando da primeira vitória do presidente Lula.
Abalos estes que seriam mais profundos já que estamos ainda dentro de uma crise econômica mundial quase sem precedentes. A resposta, salvo uma surpresa monumental e um suicídio político-econômico nacional, é de que a economia não perderá o rumo. Ou seja, qualquer que venha a ser o novo presidente, dentre os mais cotados no momento, o eixo central da economia não mudará.
Assim, 2010 deverá repetir 2006 (quando da eleição do presidente Lula em seu segundo mandato) do que retroceder para 2002, quando os discursos populistas e inconsequentes, em relação a condução da economia nacional, ainda eram a tônica.