QUANDO A CRISE ENSINA A GASTAR
Vem causando preocupação a insistência oficial para que os brasileiros continuem consumindo, sem um alerta mais consequente sobre a importância de consumir com responsabilidade e somente aquilo que é efetivamente necessário.
Causa preocupação igualmente o fato de que grande parte dos consumidores nacionais não estarem dimensionando o problema que enfrentamos. Enfim, é de abismar que muitos formadores de opinião, através dos meios de comunicação, prefiram não falar da crise para não criar um dito “clima de pessimismo”.
Até propagandas em televisão começam a surgir nessa direção. Na prática, trata-se de sermos realistas e não tentar esconder “o sol com a peneira”.
Ou seja, a crise existe, é séria e vem inviabilizando setores inteiros de produção, desempregando muita gente e indicando um crescimento nulo de nossa economia para 2009, com extensão para 2010. Isso requer reações sensatas, que muitos parecem não estar em condições de aceitá-las.
E isso que somos um país apenas emergente que, por natureza, precisa ser mais precavido diante de crises destas dimensões.
QUANDO A CRISE ENSINA A GASTAR (II)
Ora, os exemplos acabam vindos dos países desenvolvidos, confirmando que os mesmos o são também porque aprenderam a reagir com a razão, e não com a emoção, diante da realidade econômica.
Na França, por exemplo, diante do fato de que o patrimônio dos lares franceses irá baixar pela primeira vez nos últimos 30 anos, no contexto de uma realidade de forte endividamento (a crise pegou a população local, na altura de 69% do total, com altas dívidas imobiliárias de longo prazo), os consumidores mudaram imediatamente de postura.
A tal ponto que 2008 já estaria sendo definido como o ano da ruptura nos hábitos de consumo dos franceses. As vendas totais recuaram 2% naquele país no ano passado, o que em valores é algo considerável.
Em média, os lares deixaram de comprar 23 produtos em relação aos anos anteriores. Produtos supérfluos, incluindo água engarrafada, tiveram seu consumo drasticamente reduzido, assim como uma série de produtos industrializados, tal como o sabão em pó, produtos de limpeza de pisos, iogurtes etc...
No caso do sabão em pó, o corte no consumo chegou a 5% em valor e volume. Atualmente, o consumidor francês passou a adotar algo que seria inimaginável antes da crise: valorizar o “feito em casa”, particularmente no que diz respeito à alimentação.
QUANDO A CRISE ENSINA A GASTAR (III)
Ou seja, mais uma vez o econômico dita o comportamento das pessoas. A tal ponto que são os preços que o consumidor olha primeiro. Se, na passagem, a opção escolhida favorece o meio ambiente, melhor, porém, esse último critério, sozinho, não é decisivo.
Assim, a crise está servindo de lição, numa região que já viveu outras tantas crises, na medida em que os consumidores realizam um profundo exame de consciência antes de gastarem a renda que possuem. Trata-se, segundo analistas locais, de um comportamento estrutural e durável.
Na base, a classe média está passando das compras emocionais e compulsivas para compras pensadas, calculadas. Um novo ciclo de consumidores estaria surgindo, cuja característica é de serem “mais econômicos e sóbrios, deixando de lado as compras de ostentação”.
Trata-se de comprar com mais rigor, dentro da renda que se possui, sem comprometer o futuro da família. As empresas que não compreenderem isso serão as que mais sofrerão no mercado daqui em diante.
COMÉRCIO: O EFEITO CHINÊS
O Brasil, nos últimos anos, tem apostado no desempenho da economia chinesa para desenvolver sua economia e seus negócios externos. Todavia, também esse país está sendo atingido fortemente pela crise.
O seu PIB anualizado, no primeiro trimestre, ficou em 6,1% quando anteriormente o mesmo beirava os 12%. Ao mesmo tempo, as importações chinesas, de produtos brasileiros, recuaram em 29,9% nesse primeiro trimestre.
No total, as exportações chinesas chegaram a US$ 90,29 bilhões (recuo de 17,1% em relação ao primeiro trimestre de 2008), enquanto as importações caíram para US$ 71,73 bilhões (menos 25,1%), sendo US$ 3,43 bilhões oriundas do Brasil.
Ou seja, a China, proporcionalmente, além de registrar um forte recuo na sua economia e comércio externo, deixou de comprar mais produtos do Brasil do que do resto do mundo.
SOJA: PREÇOS FIRMES
Chicago continua sob influência do relatório de intenção de plantio nos EUA, que indicou estabilidade na área de soja, e preocupado com os baixos estoques finais deste ano, conforme relatório do dia 09/04.
Assim, após atingir a US$ 9,04/bushel na véspera do primeiro relatório (30/03), a Bolsa fechou a quinta-feira (16/04) em US$ 10,58/bushel, acusando um ganho superior a um dólar e meio por bushel em menos de 20 dias. Isso está sustentando os preços internos, que superam os R$ 45,00/saco no balcão.
Pena que o câmbio não está ajudando, pois o fechamento do mesmo, na mesma quinta-feira, ficou em R$ 2,17 por dólar contra R$ 2,33 em 30/03. Ou seja, enquanto o bushel ganhou 17% no período, o dólar perdeu 7%.