A Herança do Futuro Governo
Faz tempo que temos escrito alertando para o fato de que o Brasil, dentre as muitas coisas positivas que conseguiu construir nestes últimos 16 anos de estabilidade econômica, pecou em não realizar as reformas de Estado. O pecado ficou ainda mais agudo nestes últimos anos, na medida em que o governo federal aumentou os gastos públicos, muitos deles desnecessários, gerando uma dívida interna cada vez maior. A mesma se aproxima de 2/3 do PIB anual do país! Esta será uma das principais heranças que o futuro governo, a ser eleito, irá receber a partir de janeiro próximo. Cortes serão necessários, e cortes profundos se não quisermos eliminar os ganhos até aqui obtidos com a estabilização econômica. A maioria dos países, particularmente os desenvolvidos, está realizando seu dever de casa já há algum tempo. A crise da Grécia, Espanha, Irlanda, Itália, Portugal e outros países europeus só acelerou a percepção de que chegou o momento de readequar o custo do Estado ao tamanho de suas receitas e de sua real capacidade de organizar ações na economia de mercado. A situação é tão importante que ex-países socialistas e outros tantos ainda socialistas (que adotam o modelo de economia planificada) começam a cortar despesas e reconhecer o que já se sabia: tal modelo não gera desenvolvimento, pois o Estado sozinho não é eficiente.
A Herança do Futuro Governo (II)
Nesse sentido, a Rússia anuncia que vai demitir mais de 100.000 funcionários públicos até 2013, visando economizar R$ 2,2 bilhões. O presidente russo defende que a redução deva chegar a 20% dos funcionários públicos nos próximos três anos. Por sua vez, Cuba anuncia a demissão de 500.000 funcionários públicos até março de 2011, pois as contas do Estado não resistem mais a tamanho paternalismo. Terminou o tempo de só receber sem nada oferecer em troca! Segundo o próprio presidente cubano, pelo menos um milhão de funcionários públicos pode ser supérfluo (ou seja, nem os comandantes estatais cubanos sabem como a situação econômica de seu país se encontra). Este um milhão representaria 1/5 da força de trabalho total de Cuba. E o Brasil, por enquanto, continua “brincando” de gastar mais do que pode, realizando cada vez mais concursos públicos, inchando a máquina estatal e nada realizando de reformas. O resultado é que, dentre outras coisas, tal comportamento continua elevando nossos déficits e a dívida interna. Uma dura herança para o próximo governo, o qual terá duas saídas: ou continua o atual populismo que vem fragilizando as estruturas da economia interna, comprometendo as futuras gerações, ou realiza duras reformas que, por serem impopulares, comprometerá o futuro político de quem as fizer. No meio, os interesseiros de plantão estarão trabalhando para que o caminho escolhido seja o primeiro, em detrimento de melhorias estruturais benéficas para o conjunto da nação brasileira.
Déficit Externo Avança e Reservas Aumentam
Pelo lado do front externo, as coisas igualmente apresentam problemas que não estão sendo atacados suficientemente. O Banco Central brasileiro acaba de anunciar que o mês de agosto gerou um déficit de US$ 2,86 bilhões na balança de transações correntes do país. O mesmo se constitui no pior resultado desde 1947, quando começou a série histórica. Pelas projeções, o déficit da balança de transações correntes, em 2010, ficará em US$ 49 bilhões, devendo subir para US$ 60 bilhões em 2011 (mais uma herança para o novo governo). Nesse último caso, 2,78% do PIB nacional. Nos últimos 16 anos, é o pior resultado registrado nesta conta pelo Brasil. E a entrada de investimento externo direto, que ajuda a compensar esse rombo, avança, porém, de forma lenta. Nos oito primeiros meses de 2010, o volume total desse tipo de recurso chegou a US$ 17,13 bilhões, contra US$ 15,86 bilhões no mesmo período do ano passado. Por outro lado, na luta para não deixar o câmbio ultrapassar o piso de R$ 1,70, o governo continua comprando dólares no mercado, elevando as reservas cambiais para US$ 268 bilhões neste momento, após US$ 261,3 bilhões em agosto. Paralelamente, a dívida externa total atingiu a US$ 235,4 bilhões em agosto, sendo que apenas US$ 47,4 bilhões são de curto prazo, o que é positivo e demonstra o acerto das negociações realizadas ainda em 1993 no sentido de alongar o seu prazo de pagamento.
Um Ensaio de Regulação Financeira (?)
Completados dois anos da falência do banco Lehman Brothers, o sistema financeiro internacional, através dos principais bancos centrais do mundo, reunidos na Basiléia (Suíça), por ocasião da reunião do Banco Internacional de Compensações (BIS), conhecido como o “banco central dos bancos centrais”, finalmente encaminhou medidas que podem resultar num embrião de nova regulação do sistema financeiro internacional. Dentre as medidas adotadas está a exigência de que os bancos em geral deverão elevar de 2% para 7% suas reservas, a fim de reduzir o risco de crise de solvência. Foi igualmente criado limites para a “alavancagem” dos bancos (relação entre empréstimos e o capital das instituições). Isso deverá provocar consequências em muitos bancos do mundo, desde a redução na distribuição dos lucros, até menor oferta de crédito à economia, embora o objetivo seja atingir o capital especulativo. No Brasil, os efeitos serão menores porque o país já trabalha com padrões mais rígidos de controle sobre seus bancos, e isso desde o lançamento do Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional) em novembro de 1995. Aliás, foi este fato que impediu que nossa economia sofresse um impacto maior da crise econômico-financeira que atinge o mundo desde agosto de 2007.