O empréstimo do Brasil ao FMI
Causa estranheza, para muitos, o fato do Brasil anunciar que emprestará US$ 10 bilhões ao FMI. Na prática, apenas estamos seguindo o ritmo dos novos tempos da economia brasileira e das necessidades mundiais. É bom lembrar que em 02 de abril passado, quando da reunião do G20 em Londres, visando construir mecanismos para enfrentar a crise mundial, uma das decisões foi de que os países melhorariam as reservas existentes no Fundo.
Isso porque o FMI não possui recursos suficientes para enfrentar tamanha crise, fato que o deixou apenas com o papel de indicar orientações a seguir, porém, sem ações concretas. Ora, o Brasil, que vem lutando para assumir uma posição de maior presença no cenário internacional, ao participar do G20 foi naturalmente “convidado” a participar do pacote de reestruturação do Fundo.
Assim, para quem busca maior presença no cenário mundial, essa é uma ocasião. Porém, isso somente é possível graças a economia nacional ter alcançado um nível de estabilização sustentável, onde um dos pontos altos são as reservas cambiais, hoje na altura de US$ 206,5 bilhões.
Na prática, o que o Brasil fará será investir no Fundo Monetário Internacional um pouco mais de dinheiro do que historicamente o fez, transformando esse crédito naquilo que o Fundo define como Direito Especial de Saque (DES). Ou seja, não há nada de novo no processo. Apenas o fato de que estamos ampliando nossas aplicações no Fundo, e aumentando o DES, graças a nossa melhor saúde econômico-financeira.
Todavia, não se pode negar que vivemos, nos últimos 15 anos, novos tempos. Além de termos conseguido pagar nossa dívida com o Fundo, há alguns anos atrás, após termos a ele recorrido por 17 vezes ao longo dos 64 anos de sua história, agora temos condições de igualmente a ele emprestar, aumentando nosso poder político e, com isso, melhorando nossa posição internacional.
Mais protecionismo argentino
A crise econômica na Argentina, agravada pela crise mundial, continua a provocar reações protecionistas junto ao comércio internacional do vizinho país. E, a cada decisão desse tipo, o governo local afunda um pouco mais a Nação argentina na crise.
No velho estilo populista e no desespero de criar condições melhores para ganhar as eleições parlamentares desse final de junho, a presidente Cristina Kirchner, cuja popularidade está abaixo de 30%, decidiu que para cada dólar que as empresas argentinas importarem nos segmentos de calçados, brinquedos e eletrodomésticos, as mesmas serão obrigadas a exportarem outro dólar.
Ou seja, um dólar importado somente será permitido se for exportado outro dólar. Tal medida atinge em cheio setores exportadores brasileiros, que encontrarão maiores dificuldades para vender no mercado vizinho seus produtos. Dentre eles, encontramos o segmento de calçados, importante para a economia gaúcha.
Esse setor, aliás, acaba de registrar um recuo de 27,3% em volume e 28,6% em valor nas suas exportações globais nos primeiros cinco meses de 2009, em relação ao mesmo período do ano passado. Boa parte também devido a retração do mercado argentino. Sem falar que tal medida protecionista dos argentinos inviabiliza ainda mais o funcionamento do Mercosul e sua zona de livre comércio.
Agronegócio continua sustentando o comércio
A balança comercial brasileira obteve um saldo positivo de US$ 9,37 bilhões nos primeiros cinco meses de 2009. Como tem sido praxe nos últimos anos, tal resultado somente foi conseguido graças ao sucesso do agronegócio. Apenas esse setor da economia nacional registrou um superávit de US$ 19,7 bilhões no mesmo período.
Ou seja, o agronegócio gerou um resultado comercial que permitiu cobrir o déficit dos demais setores da economia. Não é por nada que o governo, para a próxima safra agrícola 2009-10, acaba de anunciar um aumento substancial de recursos para o setor primário, com o todo chegando a R$ 107,5 bilhões.
O problema, no entanto, não está exatamente no volume de recursos e sim na capacidade de pagamento dos produtores rurais. Uma grande maioria estando inadimplente, tais recursos dificilmente a eles chegarão. Além disso, nosso setor primário precisa de uma verdadeira política agrícola e não apenas de crédito o qual, aliás, raramente chega em sua totalidade aos produtores.
Política agrícola esta que deveria privilegiar, dentre outras coisas, a geração de renda dos produtores; um real seguro agrícola aos recursos postos na atividade pelos próprios produtores; um sistema de irrigação eficiente; um sistema interligado de armazenagem e transporte interiorano, no qual a infraestrutura seja modernizada, e assim por diante.
Hoje, embora seja necessário, aumentar a disponibilidade de recursos é aumentar a “bola de neve” do endividamento e inadimplência dos produtores rurais, sejam eles empresariais ou familiares, para usar expressões caras ao atual governo.
Atenção aos preços futuros da soja
Uma breve análise do comportamento das cotações da soja em Chicago, de agora até o final do ano, nos obriga a chamarmos a atenção para uma tendência de recuo importante. Nessa última quinta-feira (25), enquanto o mês de julho fechou a US$ 11,96 por bushel, o mês de novembro próximo (último mês cotado do ano) fechou em US$ 10,02 por bushel.
Ou seja, uma diferença, para menos, de quase dois dólares por bushel. Caso o relatório de plantio nos EUA, a ser anunciado no próximo dia 30 de junho, indicar área maior semeada com soja naquele país ou o clima local continuar colaborando com a safra, os preços mundiais tenderão a caminhar para os US$ 10,00 e mesmo abaixo disso, durante o segundo semestre.
Isso, se a economia mundial não encontrar pela frente um novo soluço especulativo.