A realidade da Soja
Novamente, ao chegar-se a esta época, o mercado gaúcho se depara com o problema das projeções da safra de soja. Encontramos estimativas que vão desde 9,5 milhões de toneladas até 8 milhões em relação a produção final.
Em contato com o setor produtivo do Estado, ou seja, com aqueles que estão efetivamente no campo produzindo e acompanhando a evolução das lavouras, após uma safra com muitos períodos de estiagem prolongada, os números projetados não são tão animadores.
Pelo contrário, chegam a ser mesmo decepcionantes em muitas localidades. Assim, tem-se que a quebra média, entre o esperado inicialmente e o que realmente poderá resultar na colheita, possa alcançar 12,5%, havendo possibilidades, após a seca de março, de quebra entre 20% e 30% para as lavouras de ciclo médio e tardio, as quais representam hoje, em boa parte do Estado, pelo menos 40% do total semeado.
Nessas condições, a produtividade média seria de 28 a 29 sacos/hectare no final, contra 32 sacos estimados no início do plantio e 35 a 36 sacos/hectare estimados após as boas chuvas de janeiro e fevereiro.
Nessas condições, uma revisão de produção final se impõe e não será surpresa se o número final no Rio Grande do Sul acabe abaixo inclusive dos 8 milhões de toneladas.
A realidade da Soja (II)
Os números acima deveriam temperar a euforia, mesmo que os preços ainda se mantenham interessantes (ao redor de R$ 43,00/saco).
Resta saber, a respeito de preço, como o mercado interno irá reagir na medida em que a tendência, infelizmente, é de novo recuo nas cotações em Chicago caso se confirme um aumento de área a ser plantada nos EUA, com soja, no próximo dia 31/03.
Adianta-se que tal aumento possa chegar a 8%, fato que traria novamente Chicago para níveis entre US$ 8,00 e US$ 8,50/bushel e preços locais, em reais, abaixo de R$ 40,00/saco dependendo da região.
Se considerarmos os elevados custos de produção realizados e a crise econômica mais ampla que enfrentamos, os números indicados não são péssimos, porém, estão longe de poderem ser considerados muito bons.
Na melhor das hipóteses, por enquanto, e diante da nova realidade de volume produzido, custos e preços finais do produto, seria de bom alvitre considerar que estamos diante de uma safra regular e certamente bem abaixo da registrada no ano anterior.
"Deslocalização" Empresarial
O processo de globalização da economia, que é irreversível, embora os mais afoitos estejam falando de “desglobalização”, em função da atual crise econômico-financeira, provocou nas duas últimas décadas um enorme processo de “deslocalização” de empresas.
Ou seja, empresas que passaram a mudar seu local de produção em função dos custos de produção, dos incentivos públicos e do mercado existente. Com o tempo, as multinacionais passaram a ser conhecidas por transnacionais nesse contexto.
E a crise tem feito tal movimento se acelerar em muitos casos. O anúncio da GM de investir até US$ 1,0 bilhão em sua fábrica de Gravataí (RS) entraria nessa lógica na medida em que, ao mesmo tempo, está fechando atividades e postos de trabalho inclusive nos EUA, local de sua origem.
Se isso vier realmente se concretizar, o movimento se expandirá favoravelmente para o conjunto de sistemistas espalhados pelo Estado e mesmo fora dele.
Além disso, fica ainda mais evidente o erro estratégico de não termos mantido a Ford. Sobretudo porque as compensações econômicas e sociais então prometidas não vieram, como, aliás, era de se esperar diante do quadro falimentar do Estado gaúcho.
As Escolhas Oficiais
Diante da crise econômica geral, o governo brasileiro vem, acertadamente, lutando para manter um mínimo de liquidez na economia, visando que a mesma não paralise por completo.
Mesmo assim, as últimas estimativas vindas de praticamente todos os órgãos privados, apontam um crescimento econômico em torno de zero para esse ano de 2009.
Por outro lado, as ações oficiais vêm atacando o problema apenas setorialmente, procurando estimular determinadas atividades, caso do setor automobilístico e da construção civil, por exemplo. No entanto, não se verifica nenhum movimento diferenciado e consistente em favor do setor primário nacional.
O mesmo é o mais atingido pelo desemprego oriundo da crise, com um recuo de 8,6% entre novembro e fevereiro, além de representar, no conceito de agronegócio, de quase um terço do PIB nacional.
Mas isso continua a não sensibilizar o governo, que mantém para o setor as mesmas políticas de antes, hoje ainda mais insuficientes para reestruturar um setor altamente endividado e acumulando inadimplência.