PREÇOS x ALIMENTOS
Tem se insistido muito, nos últimos meses, em torno de um tema: a falta de alimentos, diante de uma demanda mundial em crescimento, está causando uma elevação extraordinária dos preços internacionais das commodities agrícolas. Na verdade, isso não é exatamente a verdade. Se olharmos o último relatório de oferta e demanda do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA), de 11/07, veremos que a relação oferta/demanda de alimentos está mais reduzida, é verdade, porém, nada que já não se tenha vivido em alguns momentos do passado. E nem por isso os preços, nesses últimos 36 anos, mais do que duplicaram nas Bolsas de Mercadorias do mundo inteiro, como agora. Peguemos o caso dos principais grãos! O milho aponta para uma produção recorde em 2008/09, devendo atingir 775,3 milhões de toneladas (Mt) no mundo. Levando-se em conta a demanda para o mesmo ano, projeta-se um estoque final de 105,3 Mt. Abaixo das 124,6 milhões de 2007/08, porém, muito próximo das 109,9 Mt de 2006/07. O arroz em casca deverá atingir a uma produção de 510,2 Mt em 2008/09, registrando um estoque final de 82 milhões. Estoque esse superior ao registrado nos dois anos anteriores, respectivamente de 78,5 e 75,7 Mt. O trigo aponta para uma produção total de 664,2 Mt no atual ano comercial, contra 610,8 e 596,2 Mt nos dois anos precedentes. Assim, os estoques finais do cereal indicam 133,1 Mt em 2008/09, contra 116 e 126,8 Mt nos dois anos anteriores. Enfim, a soja projeta uma produção mundial de 237,8 Mt para esse ano comercial, após 218,8 e 236,5 Mt nos dois anos anteriores. Os estoques finais da oleaginosa ficariam em 48,9 Mt, contra 48,8 e 62,5 milhões respectivamente em 2007/08 e 2006/07. A produção mundial de grãos somará 2,16 bilhões de toneladas em 2008/09, após 2,1 e 2,0 bilhões nos dois anos precedentes. Os estoques finais de grãos ficariam em 348,2 Mt, contra 344,8 e 341,8 Mt nos anos anteriores.
PREÇOS x ALIMENTOS (II)
Nesse contexto, qual a principal causa da explosão dos preços dos alimentos? A especulação, alimentada pelo forte aumento nos preços do petróleo (que igualmente não está faltando), o qual visa compensar o recuo do dólar perante as principais moedas do mundo nestes últimos cinco anos. A forte demanda em petróleo por parte dos EUA (nos últimos quatro anos esse país importou 3,6 bilhões de barris) fez com que os gastos totais com a importação chegassem a US$ 500 bilhões ao preço de US$ 140,00/barril. Além disso, a balança comercial estadunidense é deficitária (US$ 700 bilhões em 2007), exigindo uma correção, a qual passa pelas importações de petróleo igualmente. Enfim, a dívida pública dos EUA é rolada com a venda de novos títulos ao mundo. Nos três casos, um dólar mais fraco auxilia a economia dos EUA. Ora, um dólar mais fraco leva os produtores/exportadores de commodities mundiais a reajustarem seus preços na moeda estadunidense para manterem sua renda.
PREÇOS x ALIMENTOS (III)
Assim, petróleo em baixa significa possibilidade de revalorização do dólar; melhoria no resultado comercial dos EUA significa possibilidade de revalorização do dólar; ajuste no custo do Estado norte-americano, com retirada de tropas do Iraque e/ou Afeganistão, além de outras medidas, significa possibilidade de revalorização do dólar. Nesse sentido, ganha enorme dimensão as futuras eleições presidenciais naquele país, marcadas para novembro próximo, pois o resultado das mesmas pode levar a uma correção cambial importante e salutar no mundo inteiro, eliminando os atuais componentes especulativos sobre a maioria dos preços internacionais. De quebra, reduzindo a tensão inflacionária mundial que hoje existe. Caso contrário, o dólar continuará perdendo força mundo afora até chegar ao seu ponto de equilíbrio nessas circunstâncias anormais.
INFLAÇÃO
Mesmo sendo um processo especulativo sem nexo aparente na lógica de oferta e demanda de bens, o fato é que a inflação mundial aumentou e está exigindo uma série de medidas por parte dos diferentes governos. No Brasil, a medida mais importante e estruturalmente mais aconselhável seria a redução dos gastos públicos, através de uma ampla reforma do Estado. Como isso não ocorre, o país convive com o remédio amargo e potencialmente recessivo do aumento da taxa de juros. Nesse sentido, preocupa as palavras do presidente Lula ao afirmar que não há mais o que cortar nas despesas do governo. Ou seja, ao aceitar essa premissa, está aceitando a impossibilidade política de reformar positivamente o Estado (Federação, Estados, Municípios e Empresas Estatais), não cortando gastos, apesar de possuir poder sobre 36% do dinheiro que circula na economia. A preferência fica então pelo aumento dos juros, que sacrifica o poder de compra da população, a capacidade de investimentos empresariais e do próprio governo, e aumenta a dívida interna, que hoje já ultrapassa o equivalente a US$ 765 bilhões enquanto a dívida externa está ao redor de US$ 210 bilhões.