A DEGRADAÇÃO DA CONTA-CORRENTE
Dentre os efeitos da crise financeira nos EUA, provocada pelo estouro da bolha imobiliária em agosto do ano passado, o Brasil assiste nesse momento um preocupante movimento de degradação de sua conta-corrente. A mesma, que estava positiva até o final de 2007, entrou em uma espiral negativa sem retorno, pelo menos por enquanto. Em julho de 2008 o resultado negativo acumulado no ano chegou a US$ 19,51 bilhões. É o pior resultado desde 1947, quando a série passou a ser realizada. Em igual período do ano passado, houve um superávit de US$ 1,69 bilhão. No acumulado de 12 meses (julho/07 a julho/08) o déficit é de US$ 19,49 bilhões. Para o mês de julho, cujo déficit ficou em US$ 2,11 bilhões, o resultado é o pior desde 1997, tendo o mesmo sido três vezes superior ao déficit registrado em julho de 2007. Na prática, a forte remessa de lucros e dividendos para o exterior, visando cobrir os rombos provocados pela crise financeira mundial, é parte da explicação de nosso atual déficit. Nos primeiros sete meses do ano foram enviados US$ 22,1 bilhões ao exterior, ou seja, quase o dobro do registrado no mesmo período de 2007. Outra explicação está no câmbio sobrevalorizado existente no Brasil. O saldo da balança comercial diminui rapidamente, devendo passar de quase US$ 47 bilhões, no ano passado, para algo em torno de US$ 25 bilhões nesse ano. A situação só não é pior porque os preços internacionais das commodities que exportamos subiram significativamente nesse ano. Enfim, um terceiro elemento, igualmente ligado ao câmbio, encontramos nos gastos dos brasileiros no exterior. Favorecidos pelo dólar fraco, apenas em julho os brasileiros gastaram US$ 1,3 bilhão no exterior, contra US$ 468 milhões deixados aqui pelos estrangeiros.
A DEGRADAÇÃO DA CONTA-CORRENTE (II)
Nesse contexto, o resultado final da balança de pagamentos, embora ainda positivo, continua recuando. Em julho o mesmo somou US$ 2,3 bilhões, contra US$ 7,6 bilhões registrados em igual mês de 2007. No ano, o saldo é positivo em US$ 21,6 bilhões. Isso ocorre porque a entrada de investimentos externos diretos (IED) continua firme, atraídos pela estabilidade política e econômica do país, apesar da enorme corrupção pública, burocracia e desmandos em geral. Auxiliou para isso o fato de termos alcançado o grau de investimento, em maio passado. Todavia, no acumulado do ano, o volume destes investimentos recuou. Em julho de 2007 o mesmo era de US$ 34,25 bilhões, contra US$ 30,06 bilhões em julho de 2008. O governo brasileiro espera captar em IED cerca de US$ 35 bilhões nesse ano, porém, nos primeiros sete meses o volume total chegou a US$ 19,94 bilhões, contra US$ 24,4 bilhões em igual período do ano passado. Assim, em continuando o déficit na conta-corrente, o qual pode terminar o ano em US$ 24,5 bilhões, e o ritmo de entrada atual de IED, o cobertor poderá ser curto, apesar do otimismo do governo, obrigando-nos a aceitar uma queda drástica no saldo final da balança de pagamentos. Em o quadro não mudando, 2009 tende a ser ainda mais difícil, comprometendo um pouco mais nossa capacidade de crescimento econômico.
A PRÉ-SAL, OS IMPOSTOS E OS GASTOS PÚBLICOS
Já é do conhecimento geral que, se as informações estiverem corretas, o Brasil possui uma enorme reserva de petróleo no oceano Atlântico, localizada a cerca de 7.000 metros de profundidade, na chamada camada pré-sal. O que preocupa é a tendência de parte do governo em criar uma nova estatal para cuidar deste óleo. Ora, a Petrobrás pode e deve permanecer como sendo a empresa nacional a cuidar desta riqueza, bastando para tanto ajustá-la ao tamanho da descoberta em termos operacionais e gerenciais, inclusive mantendo seus contratos de risco. A criação de uma nova estatal, assim como o Ministério da Pesca, virá apenas para acomodar interesses políticos às custas dos impostos pagos pela Nação. Aliás, nesse sentido, preocupa igualmente a recontratação de funcionários públicos licenciados no governo Collor. O país precisa enxugar seu quadro de pessoal e não o contrário! Nesse ritmo, não há como se espantar de que a reforma tributária, na lógica de reduzir os impostos no país e tornar o sistema mais eficiente, jamais saia do papel. O governo precisa cada vez mais de recursos vindo dos impostos para manter um sistema perdulário e caminhando na contramão das necessidades nacionais. Para se ter uma idéia, nos sete primeiros meses de 2008 a Receita Federal arrecadou quase R$ 400 bilhões, ou seja, 11,2% acima do arrecadado em igual período do ano passado. Esse percentual equivale a arrecadação prevista com a CPMF para 2008, caso ela tivesse permanecido. Ocorre que o governo já lançou a idéia de retomá-la, travestida de contribuição social para a saúde. E assim caminha o país!
REVERSÃO DO DÓLAR
Começou a circular no mercado a idéia de que a tendência baixista do dólar teria chegado ao fim. Após cinco anos de depreciação, a moeda estadunidense começaria a ganhar fôlego novamente. No Brasil, após atingir R$ 1,56, a mesma gira, neste final de agosto, ao redor de R$ 1,63, confortando a idéia. Para alguns analistas, poderemos mesmo fechar 2008 não mais com um câmbio em R$ 1,50 mas sim em R$ 1,70. E para 2009 já se projeta um câmbio a R$ 1,80. Obviamente isso colocaria paulatinamente as coisas nos eixos, com algumas conseqüências. Em primeiro lugar, os preços das commodities mundiais, inclusive a soja, deverão baixar no mercado internacional, fato que já se iniciou a partir de meados de julho. A especulação não encontraria mais respaldo para aumentar os preços em dólares diante da moeda estadunidense em apreciação.
REVERSÃO DO DÓLAR (II)
Em segundo lugar, a inflação internacional tenderia a baixar, com os preços se acomodando em patamares mais palatáveis, estabilizando novamente a economia. Em terceiro lugar, as bolsas de valores veriam as oscilações especulativas diárias diminuírem e os ganhos tenderiam a retornar. No Brasil, o Real se aproximaria de uma paridade de poder de compra, em relação ao dólar, mais realista se considerarmos o período 2005-2008. Todavia, é bom lembrar que ainda é cedo para afirmarmos que a reversão do dólar iniciou um processo sem volta, pois a crise financeira internacional continua. Por outro lado, muita coisa dependerá dos resultados da eleição presidencial dos EUA, prevista para o próximo dia 4 de novembro.