BALANÇA COMERCIAL: SALDO EM QUEDA
Os resultados da balança comercial brasileira, em agosto, confirmam a tendência de queda significativa no saldo final da mesma para este ano de 2008. Com exportações de US$ 19,7 bilhões e importações de US$ 17,5 bilhões, a primeira impressão é de que as coisas estariam melhorando, já que o saldo mensal ficou positivo em US$ 2,27 bilhões. Todavia, se comparado com agosto de 2007 o referido saldo indica um recuo médio diário de 29,8%. E se comparado com julho passado a queda diária é de 24,8%. Assim, no acumulado dos primeiros oito meses do ano, o saldo comercial brasileiro, em 2008, atinge apenas US$ 16,91 bilhões contra US$ 27,46 bilhões no mesmo período de 2007. Ou seja, o saldo acumulado de 2008 é 38,4% menor do que o registrado no mesmo período do ano anterior. No acumulado de um ano (setembro/07 a agosto/08) o saldo final é de US$ 29,48 bilhões enquanto um ano antes o mesmo era de US$ 44,17 bilhões. Isso significa cerca de 33% a menos de saldo nos últimos 12 meses. Ou seja, o Real sobrevalorizado vem cobrando seu preço. A situação pode melhorar um pouco nos últimos quatro meses de 2008 na medida em que o câmbio sofre um ajuste, com leve valorização do dólar. O mesmo ultrapassou a R$ 1,66 durante essa semana!
BALANÇA COMERCIAL: MILHO E SOJA MENOS EXPORTADOS
No contexto de nossas exportações, mais fracas nesse ano, agosto sinalizou com outro problema. Tanto a soja quanto o milho tiveram forte recuo em suas exportações, comprometendo a manutenção de preços interessantes aos produtores para os próximos meses. Os embarques de soja recuaram 40,8% no mês, ficando em 2,36 milhões de toneladas, contra 3,98 milhões em julho segundo a SECEX. Em relação a agosto de 2007, o recuo ficou em 11,8%. O rendimento na venda de grãos de soja no mês passado ficou em US$ 1,22 bilhão, contra US$ 1,9 bilhão em julho e US$ 763,4 milhões em agosto do ano passado. Essa diferença se deve as oscilações nos preços médios e, particularmente, ao fato dos produtores terem reduzido suas vendas esperando preços melhores, após as altas cotações de julho. No caso do milho a situação é mais grave já que o recuo nas vendas externas, em agosto, atingiu a 78% em relação a agosto de 2007. Em relação a julho passado, as vendas de agosto ficaram 22,2% menores. No acumulado dos oito meses do ano as exportações de milho pelo Brasil chegam a apenas 3,6 milhões de toneladas. Isso aponta uma tendência de exportarmos tão somente 5,5 a 6 milhões de toneladas em 2008. Ora, o necessário, para manter os preços elevados (acima de R$ 25,00/saco ao produtor no interior), era que exportássemos pelo menos 11 milhões de toneladas de milho nesse ano, diante da produção final que se desenha (entre 56 e 58 milhões de toneladas). Assim, em não havendo uma reversão nas vendas externas neste resto de ano, os preços do milho devem recuar ainda mais no mercado interno brasileiro para o final de 2008, desestimulando o plantio desse cereal na safra de verão.
O ATRASO DA LOGÍSTICA NACIONAL
Nossas dificuldades em manter melhores saldos comerciais nesse momento não provêm apenas do câmbio. Não é de hoje que sabemos que o custo do Estado, através de altos e muitos impostos, e a ineficiência de nossa logística, boa parte em mãos estatais, emperram nossa competitividade externa. Assim, diante de custos cada vez mais elevados internamente, onde estradas, capacidade de estocagem, portos, acesso a energia e comunicações deixam muito a desejar em grande parte do país, os exportadores perdem espaço, mesmo que procurem melhorar suas capacidades gerenciais. Para se ter uma idéia do atraso que temos nessas áreas, apenas na área portuária o país precisaria de investimentos da ordem de US$ 25 bilhões para expandir o setor até 2017. São necessários 105 berços de atracação adicionais e 22 milhões de metros quadrados de área para atender a futura demanda de cargas. E isso que abrimos um pouco a economia desde 1990, fato que nos levou a melhorar o sistema desde então. A questão agora é convencer o capital internacional a investir ainda mais no setor no Brasil já que esperar somente do Estado e das empresas nacionais tamanho investimento, nas condições atuais, está longe de ser recomendável.
DESAQUECE A ESPECULAÇÃO
As bolsas de valores e de mercadorias, mundo afora, assim como o mercado real, vêm assistindo a um recuo nos preços desde meados de julho passado. O sentimento geral, diante da crise financeira mundial, é de que a especulação desaquece. Para se ter uma idéia, no início desse mês de setembro (dados de 02/09), a Bovespa fechava seu pregão em 54.404 pontos, contra cerca de 70.000 pontos em maio passado. Ao mesmo tempo, o petróleo recuou abaixo de US$ 110,00/barril, com clara tendência de romper logo mais o piso de US$ 105,00/barril e, talvez, até o final do ano o valor de US$ 100,00/barril. As commodities agrícolas igualmente cedem paulatinamente, na esteira da queda do petróleo e da valorização do dólar que passa finalmente a ocorrer. Ou seja, o mercado se ajusta e, após quase dois anos de preços fora do normal, o mercado mundial tende a buscar patamares mais palatáveis à capacidade de consumo global.
O LEITE, O BRASIL E O PROTECIONISMO MUNDIAL
Diante do fracasso das negociações multilaterais da Rodada de Doha, pelo menos por enquanto, e da crise financeira mundial, a tendência é do protecionismo comercial aumentar, mesmo não sendo o melhor caminho. Nesse sentido, o Brasil deve encaminhar um pedido ao Mercosul para elevar a Tarifa Externa Comum do bloco, para o leite, soro e queijos, para 28%, contra os atuais 16% aplicados para o leite e queijos e 14% para o soro. A justificativa, além de proteger a produção nacional, mesmo penalizando os consumidores, está no fato de que a União Européia, para esses produtos, impõe uma tarifa de 264%, o Canadá de 313% e os EUA de 139%. Hoje a produção brasileira de leite se aproxima de 28 bilhões de litros, sendo o Rio Grande do Sul um produtor em ascensão (entre 10% a 12% da produção nacional) graças aos fortes investimentos industriais que começam a maturar.