A CRISE MUNDIAL CONTINUA
Como já se esperava a crise econômico-financeira internacional não só continua como tem piorado em muitos aspectos. Os constantes pacotes econômicos, visando resolvê-la, vão se tornando insuficientes na medida em que passa o tempo. Nesta semana, foi a vez da China decepcionar o mercado com seu plano de recuperação.
Na prática, o problema central está no sistema financeiro, onde tudo começou. O restante acaba sendo consequência. Enquanto o mundo não conseguir estruturar um processo de efetiva recuperação dos bancos envolvidos na crise, a mesma não irá terminar. Nesse sentido, até mesmo a provisória estatização destes bancos vem sendo cogitada.
A estratégia seria os Estados sanearem os mesmos (fazer com que o dinheiro público assumisse a conta) e depois os revendessem ao setor privado. Na Europa, a estratégia agora é criar um banco específico que absorva os títulos “podres” ou “tóxicos”, enquanto os bancos sobreviventes voltem a atuar no mercado. Pelo sim ou pelo não, o fato é que a situação é grave e de longa duração, confirmando os alertas feitos no ano passado.
Assim, a liquidez mundial não deve se recuperar muito cedo, freando a economia real ainda mais, e trazendo o crescimento (PIB) para níveis muito baixos senão recessivos (caso da maioria dos países ricos). No Brasil, o mercado já está confirmando a possibilidade de um crescimento de apenas 1,8% em 2009 e, talvez, menos.
ANTIGLOBALIZAÇÃO (?)
Nesta época de crise mundial tem-se ouvido falar de antiglobalização no sentido de que o mundo estaria revertendo o movimento globalizador dos últimos 25 anos.
Erro crasso! A globalização é um movimento que interliga a população do planeta, suas culturas e negócios, graças ao avanço da ciência, particularmente nas áreas das comunicações e do transporte.
E isso é irreversível! Na área econômica, o que se nota, como em todo o movimento de crise na história da humanidade, é a tentativa de fechamento das economias na esperança de se isolarem do problema.
Ledo engano! A economia mundial somente irá sair da crise se os mercados continuarem dinâmicos, abertos. Há consciência disso, inclusive junto ao governo brasileiro, mesmo tendo no passado execrado em alguns momentos os acordos internacionais de livre comércio.
O problema é traduzir isso em ações concretas, diante das pressões políticas internas e dos lobbies organizados que não querem perder suas vantagens, agora ameaçadas pela salutar correção de rumo que naturalmente a economia mundial terá que fazer.
INADIMPLÊNCIA BATE À PORTA
Como era de se esperar, o estímulo ao consumo desenfreado, mesmo em época de crise, começa a trazer seu fardo de problemas.
O consumidor brasileiro, em boa parte, ao abusar do consumo, acreditando inclusive no discurso oficial, agora não consegue sustentar o que construiu e vem se tornando inadimplente.
Isso é um elemento a mais na freada econômica do país, puxada pela crise mundial. Sem falar no problema do desemprego que aumenta e não tem solução imediata, pois nossas empresas e economia dependem da solução do problema maior, ou seja, da crise internacional.
Mesmo estando bem melhor preparados nestes últimos anos, jamais podemos cair em tentação consumidora, ultrapassando nossas capacidades de pagamento. Uma lição antiga como o mundo, porém, mais uma vez esquecida pela maioria, inclusive por membros do governo federal.
SOJA: SAFRA MELHOR, PREÇOS MENORES
Felizmente para o Centro-Sul brasileiro e particularmente para o Rio Grande do Sul, com exceção do milho e do feijão, a safra de verão se recuperou na esteira da melhoria climática e promete auxiliar nesse momento de aperto econômico geral.
A soja, por exemplo, deverá alcançar uma produção satisfatória, ao redor de 55 a 57 milhões de toneladas no país e 8,2 a 9,0 milhões de toneladas no Estado gaúcho.
Embora menor do que no ano anterior, o volume é muito bom diante das circunstâncias. Todavia, neste ano os preços da oleaginosa serão menores, em média, embora ainda interessantes. No mercado mundial, a partir da Bolsa de Chicago, a primeira semana de março apontava uma cotação de US$ 8,52/bushel para maio (cotação que começa a balizar os preços dos produtores rurais mundiais a partir de meados de março).
Na mesma época do ano passado, o bushel de soja para maio daquele ano era cotado a US$ 14,90, tendo chegado, em 03/07/2008, ao recorde histórico de US$ 16,58. Assim, em um ano o recuo das cotações em Chicago é de 42,8%.
No mercado interno brasileiro, a situação é de preços menores, porém, com um recuo menos acentuado. A média gaúcha, no balcão, na primeira semana de março de 2009 ficou em R$ 43,68/saco. Um ano antes, tal média era de R$ 47,66/saco. Ou seja, um recuo de apenas 8,4%.
Esse menor recuo em reais se deve a forte desvalorização do real no período, fato que auxilia na formação do preço da soja em reais. Enquanto hoje o mercado cambial pratica um valor de R$ 2,38 para o dólar dos EUA, um ano antes o mesmo registrava R$ 1,67.
Ou seja, o real se desvalorizou no período 42,5%, acompanhando exatamente a percentagem de queda dos preços da soja em Chicago.