Os produtores de trigo e suas cooperativas têm toda a razão em estarem insatisfeitos com os preços recebidos pelo produto nesta última safra. Os mesmos não alcançaram o preço mínimo estabelecido e até mesmo, no momento em que se esperava uma recuperação do mercado, os preços recuaram. E, antes de 2010, não há perspectivas de melhoria nos mesmos!
No Rio Grande do Sul, onde a qualidade do produto ficou comprometida na última safra devido ao excesso de chuvas, a situação é ainda pior. Para se ter uma ideia da evolução recente deste mercado, lembramos que em novembro de 2007, quando da colheita, a média gaúcha, do saco de 60 quilos ao produtor, ficou em R$ 25,32.
Esse preço subiu para R$ 33,01 em maio de 2008, chegando nesse início de agosto de 2009 em apenas R$ 22,53. O preço médio atual, em valores nominais, é o mais baixo desde setembro de 2006, quando o mercado chegou a R$ 19,92/saco. Isso para produto de qualidade superior! Assim, entre maio/08 e agosto/09 (15 meses) o preço recuou 31,7%, enquanto a inflação oficial (IPCA) ficou em apenas 5,83% no período.
A situação é tão ruim, no momento, que empresas produtoras do grão, na região Noroeste gaúcha, estão conseguindo apenas R$ 25,20/saco para o produto de qualidade superior, em lotes. Ora, esse preço praticamente equivale ao preço mínimo da nova safra, para o trigo tipo brando e está longe dos R$ 28,80/saco que era o preço mínimo estabelecido para a safra anterior.
Além disso, o custo de produção total, incluindo o financeiro, subiu muito. A uma produtividade média de 36 sacos por hectare de produto superior (o que poucos conseguiram no ano passado), o custo chega a R$ 26,73/saco.
Ou seja, nesse início de agosto os produtores deste trigo estão amargando um prejuízo de R$ 1,53/saco.
Trigo: mercado ruim (II)
E o pior é que em nenhum momento da comercialização dessa última safra (novembro/08 a agosto/09) o preço foi superior ao custo de produção realizado. A média do preço recebido pelos produtores gaúchos, no período, ficou em R$ 23,99/saco, sendo que o melhor mês foi maio, com R$ 24,41/saco.
As causas podem ser assim enumeradas:
1) a cadeia do trigo nacional continua não funcionando e ninguém efetivamente defende o produto e sim busca tirar o máximo de vantagem sobre os demais elos, havendo uma nítida pressão das indústrias sobre os produtores rurais;
2) a produção nacional, no ano passado, foi de 6 milhões de toneladas (uma das maiores dos últimos anos), mesmo com produto de menor qualidade;
3) embora a Argentina tenha tido uma safra frustrada em 50%, os moinhos nacionais buscaram se abastecer rapidamente do produto vizinho, gerando estoques;
4) os preços internacionais caíram significativamente, passando de mais de US$ 12,00/bushel em fevereiro de 2008 para apenas US$ 5,00/bushel nessa primeira quinzena de agosto de 2009;
5) ao mesmo tempo, o Real voltou a se valorizar, chegando agora ao redor de R$ 1,80, contra R$ 2,31 em março passado, fato que, associado ao item anterior, favoreceu as importações de trigo de fora do Mercosul;
6) o governo, para tentar sustentar um preço mais razoável ao produtor, realizou leilões que elevaram o estoque oficial para quase um milhão de toneladas, fato que agora pesa sobre o mercado;
7) o consumo permaneceu estagnado, ao redor de 10,5 a 11 milhões de toneladas;
8) a alternativa da exportação não funcionou neste ano, pois a qualidade média do produto era baixa e, posteriormente, o câmbio não ajudou;
9) contraditoriamente, os produtores nacionais pouco reduziram a área semeada no plantio de 2009/10.
O quadro melhora se houver menor oferta em 2010!