Parte I:
No contexto econômico, o final de 2008 chega envolto em melancolia profunda. É o pior final de ano desde 2001, quando o mundo foi assobrado pelos atentados contra o World Trade Center, em Nova York. Na economia mundial, as bolsas de valores ainda despencam, dando mostras que o fundo do poço da crise financeira não tenha sido alcançado. Em relação a 1º de janeiro, o índice Dow Jones (Wall Street) recua 43%, o Nasdaq 50%, o CAC 40 de Paris 47%, o Dax da Alemanha 48%, o FTSE 100 de Londres 40%, o Nikkei (Tóquio) 48%, o Xangai (China) 62% e o Micex (Rússia) 72%. As perdas são impressionantes e impactam a economia real como um todo. Os bancos encontram dificuldades para sobreviverem, com a liquidez mundial recuando fortemente. Na esteira desse processo, o dólar se fortalece junto às principais economias do planeta, provocando um recuo violento no preço das commodities. O petróleo, nesse início de dezembro, já rompeu o piso dos US$ 50,00/barril, chegando a US$ 46,00 em alguns momentos. Na agricultura, os preços recuam constantemente, com perdas superiores a 50% no mercado mundial. A soja, por exemplo, na Bolsa de Chicago, fechou o dia 05/12 a US$ 7,83/bushel, ou seja, 52,8% abaixo do auge alcançado cinco meses antes. Tal situação, embora coerente com a economia real, pois é uma correção previsível do movimento especulativo que ocorria, torna os investimentos mais difíceis. Além disso, setores inteiros da economia real começam a questionar sua sobrevivência futura. Na área automobilística, símbolo da economia dos EUA, um enorme socorro do Estado acaba de ser anunciado visando dar um pouco de fôlego ao setor. Mesmo assim, tanto a GM como a Ford e a Chrysler estão à beira da falência.
Parte II:
Paralelamente, o mundo, após a constatação da recessão, já está falando em deflação, ou seja, inflação negativa oriunda de um ganho no poder de compra devido a uma redução geral e durável dos preços. Isso coloca em xeque a capacidade de produção e investimento das empresas. A China já declarou que está trabalhando no sentido de conter ao máximo esse problema. Por enquanto, o fenômeno está mais para uma desinflação acelerada, porém, a deflação desponta no horizonte. Ora, tal realidade assusta porque ela se torna crítica para os agentes econômicos endividados, seja o Estado ou o setor privado. Isso porque o montante dos juros e do capital a serem pagos aumenta automaticamente. E como quase todo mundo está endividado, o impacto atingirá a todos, sendo mais uma conseqüência da crise financeira que aí está. Além disso, depois de instalada, a deflação demora em sair. O Japão, lembrem, levou 12 anos para sair de uma crise desse tipo (entre 1990 e 2002)! Um dos remédios a ser aplicado é a redução substancial da taxa de juros. No caso do Brasil, mais um desafio ao Copom que ainda se reúne em dezembro. Aliás, em nosso país o quadro externo vai deixando suas marcas. O dólar disparou, chegando próximo a R$ 2,60 na semana passada, embora as constantes intervenções do Banco Central. A inflação ainda não deu sinais de um recuo substancial, impedindo a redução dos juros. O crédito privado praticamente desapareceu da praça, enquanto os juros de mercado sobem e os prazos de pagamento diminuem. Os preços agrícolas caem e o endividamento geral é evidente. O desemprego, as vezes mascarado de férias coletivas, avança. A Bovespa já perdeu 46% no ano, enquanto o consumo diminui, apesar da pressão oficial para que ocorra o contrário. Decididamente, um final de 2008 que indica o fim de um ciclo!