A crise econômica mundial, embora ainda presente, estaria dando mostra de perder força no cenário internacional. Uma lenta retomada da economia global parece se confirmar neste final de 2009, indicando melhores ventos para 2010. No entanto, existem ainda muitas incertezas e é cedo para se contar vitória. Isso, mesmo no Brasil, apesar da euforia oficial pré-eleitoral.
A economia mundial se encontra agora iniciando um processo de saída do fundo do poço, onde as incertezas são muitas. Uma delas, senão a principal, se encontra no comportamento do dólar. O fato de o mesmo ter perdido força significativa perante as principais moedas do mundo, inclusive o Real, particularmente nestes últimos cinco meses, deixa o mundo temeroso de que a retomada econômica não passe de uma tentativa.
Afinal, muito da mesma depende do comércio externo. Ora, com moedas sobrevalorizadas, a maioria dos países perde competitividade externa. Quem ganha com isso são os EUA e a China, que mantém um sistema de desvalorização do Yuan ao ritmo do dólar. Seria fundamental, portanto, que os EUA mudassem sua postura atual e declarassem seu interesse em ver um dólar forte na economia mundial.
Por enquanto, não é o caso! Nesse ano de 2009 pode-se ver claramente o interesse estadunidense em manter um dólar fraco. Na prática, a coisa funciona assim: como qualquer produto no mercado, o valor do dólar evolui em função de sua oferta e procura. A partir do segundo semestre de 2008, e até abril/maio de 2009, o dólar sai de uma posição depreciada e ganha valor perante as moedas mundiais rapidamente.
A crise internacional provoca dois efeitos explicativos: as empresas transnacionais são obrigadas a repatriar seus ativos para os EUA, visando cobrir os rombos em Wall Street; e há redução na oferta de títulos americanos.
Um problema chamado dólar (II)
Em síntese, a demanda líquida por dólares acabou aumentando, fato que provocou sua apreciação. No Brasil, a moeda norte-americana, que estava em R$ 1,56 no final de julho de 2008, passa a R$ 2,44 no início de março de 2009. Posteriormente, inicia um novo processo de depreciação, chegando hoje a R$ 1,72.
E isso no mundo inteiro! Isso ocorre porque os EUA voltaram a usar o artifício do dólar fraco para enfrentar seus problemas de déficit comercial e necessidade de rolagem de sua enorme dívida interna, tornando mais fácil combater a atual crise. Nessas condições, a incerteza mundial para uma saída mais consistente desta crise, sem entrarmos em outra pior, passa pelo futuro do dólar.
Por enquanto, a tendência pode ser resumida da seguinte forma: a solução dos desequilíbrios mundiais passa por um dólar fraco. A isso vem se somar a constante degradação das finanças públicas estadunidenses, acelerada pela necessidade de socorro estatal à economia atingida pela crise.
A retomada econômica tende a gerar inflação, fato que pode desvalorizar os títulos americanos além de elevar os juros internos. Tal elevação colocará ainda mais em perigo as finanças públicas dos EUA, levando a um maior desinteresse local e internacional pelos ativos daquele país.
Com isso, haveria uma nova corrida pelos ativos dos outros países, inundando-os de dólar e derrubando o valor do mesmo perante as demais moedas. Isso provoca grandes prejuízos nas balanças comerciais dos demais países, Brasil no meio, impedindo uma retomada do crescimento e uma saída mais firme da crise, além de causar uma recuperação artificial dos preços das commodities mundiais, pois a especulação buscará compensar, pelo aumento do valor em dólares das mercadorias, a redução dos ganhos pela queda do poder aquisitivo desta moeda.
Nesse sentido, 2010 promete ser complicado!