Efetivamente a crise econômico-financeira mundial está gerando a construção de uma nova governança internacional. A mesma ficou cristalizada na última reunião do G20, realizada nesse final de setembro em Pittsburg (EUA). A mesma definiu, finalmente, que o comando do mundo, a partir de reuniões de países considerados representativos, não ficará mais em mãos do G7 (ou G8 quando a Rússia era convidada) e sim sob responsabilidade do G20, grupo do qual o Brasil faz parte.
Isso permite maior representatividade mundial na discussão dos caminhos econômicos do Planeta. Além disso, deverá ser acelerada a instauração de um sistema de regulação da economia, sem eliminar o mercado e criando espaços para a inovação avançar. O FMI ganhará mais força e, dentro dele, os países emergentes. Em síntese, como se previa, se tudo isso for realmente posto em prática, o mundo não será mais o mesmo a partir de 2010.
Além disso, provavelmente os EUA e o dólar não terão mais a importância anterior, porém, ainda continuarão liderando a economia internacional. Nesse sentido, o FMI assume um papel de “último recurso” para fornecer empréstimos aos países em dificuldades, orientando os países em questão a destinarem suas reservas para o reforço de seu crescimento.
Vale ainda destacar que a crise está longe de ser superada, fato que ficou igualmente evidenciado na reunião do G20. Foi evitada uma Depressão como a de 1929, porém, é preciso manter a prudência em relação à saída total da crise. Mesmo porque o mundo deverá acusar um PIB de 1,4% negativo em 2009, caracterizando a manutenção da recessão.
E para quem imagina que o segundo semestre será melhor, todo o cuidado será pouco, pois os bancos não estão adotando medidas de controle, já começando a repetir a especulação anterior.
Uma nova governança mundial (II)
Soma-se a isso o fato dos países terem que continuar a manter a liquidez mundial, mostrando que o mercado ainda não tem fôlego para caminhar sozinho. Aliás, a reposição do IPI junto às vendas de veículos no Brasil, até o final deste ano, já causa enorme preocupação no setor automobilístico nacional, pois o mercado deverá frear fortemente.
Por enquanto, para usar as palavras do presidente do FMI, o mundo pode ter saído da crise financeira, porém, ainda estamos em plena crise econômica, ou seja, a economia real ainda está longe de sair do “fundo do poço”, mesmo que no Brasil pareça ser o contrário. E sem falar que a crise social permanece e até se agravou em termos globais.
Nesse sentido, o desemprego mundial deverá continuar aumentando, pelo menos até meados de 2010. Isso implica dizer que o comércio internacional continuará menor, obrigando os países a desenvolverem seus mercados internos para mitigarem seus problemas de produção. Paralelamente, ninguém ousa afirmar que a saída da crise mundial será forte e consistente. Há uma grande incógnita nesse sentido, embora a tendência indique um caminho favorável.
O problema de fundo é que o mundo precisa resolver, mais do que nunca, os déficits públicos gerados e, sobretudo, o dos EUA, e os excedentes financeiros gerados pela China. Ora, se o consumidor estadunidense passar a poupar mais, o que é necessário, o desafio será encontrar quem poderá puxar o crescimento mundial. Pelo nível de distribuição de renda existente, isso não será possível por parte dos países emergentes.
Afinal, será preciso encontrar um substituto, mesmo que parcial, para um país que representa cerca de 25% do PIB mundial em termos concretos.
Enfim, uma nova governança se instala e ela tende a ser melhor do que a anterior mas o trabalho de saída da crise ainda é imenso, começando pela regulação financeira.