A crise junto aos países da União Europeia, liderados pela Grécia, Portugal e Espanha, ganhou contornos de desastre, nos últimos dias de abril, quando a agência de avaliação de risco S&P rebaixou a classificação destes países para o nível de “devedores duvidosos”.
A ponto de alguns analistas locais julgarem que a crise está revelando a fragilidade da construção do bloco europeu, já que a União Econômica e Monetária não conseguiu avançar para uma necessária “união política e popular”.
Embora julgando exagerada a ideia de que a estrutura da União Europeia venha a ruir por força da atual crise, mesmo diante das dificuldades existentes, interessante se faz destacar a análise de Pierre Rimbert, no Le Monde Diplomatique on line do último dia 30/04.
Para ele, a crise tem por motivo central a onda de desregulamentação financeira iniciada nos anos de 1980, a qual desemboca numa crise de mercado em 2007, enfrentada com remédios de mercado. A atual crise pode ser resumida em seis etapas a partir de então, confirmando muito do que já escrevemos neste espaço.
Em primeiro lugar, para sair da crise provocada pelo estouro da “bolha da Internet” em 2000, o Banco Central dos EUA manteve taxas de juros muito baixas, favorecendo a especulação financeira. A mesma alcança 2007 com os domicílios estadunidenses endividados e sem condições de pagarem os empréstimos imobiliários realizados até então.
Na sequência, esta crise, batizada “dos subprimes”, em 2008 degenera em crise bancária, pois os bancos estavam cheios de créditos insolváveis.
União Europeia à perigo (?) (II)
Em terceiro lugar, os Estados se endividam acima de suas possibilidades para salvar os bancos e relançar as economias. Assim, a crise das finanças privadas se transforma em inchaço da dívida pública e em crise social, via forte desemprego.
Em quarto lugar, tal situação leva a muitos transferir seus recursos do mercado acionário e das bolsas para o de títulos públicos. Este, por sua vez, incha rapidamente e oferece uma taxa de juros muito baixa (em alguns países próximas de zero).
A crise da Grécia e alguns outros países, somada à descoberta de problemas junto ao banco Goldman Sachs, leva a um ataque especulativo sobre a dívida soberana destes países, com o objetivo de elevar a taxa de juros global.
Em quinto lugar, um círculo vicioso se instala: é necessário tomar empréstimos para pagar a dívida, que fugiu ao controle; reduzir seus déficits para poder tomar emprestado; cortar despesas públicas para reduzir os déficits; reduzir os salários, as prestações sociais e reformar a previdência para reduzir as despesas públicas, fato que leva a um empobrecimento das pessoas, freia no imediato a recuperação potencial da economia e estimula as agências de risco a reduzirem a avaliação destes países.
Enfim, um efeito dominó se instala junto aos países europeus, onde medidas duras de ajustes são agora impostas, fato que leva a uma reação da sociedade atingida e a especulação de que a conhecida zona euro poderá explodir.
Hoje, infelizmente, a palavra de ordem dos Estados é dar garantias aos mercados financeiros e não melhor regulá-los, como se afirmava há um ano no G20.