Contrariando algumas expectativas, porém, confirmando preocupações internacionais, particularmente da China, o dólar dos EUA volta a perder força perante as principais moedas do mundo, inclusive o Real brasileiro.
No início do pregão deste dia 20/05 o mesmo atingia a R$ 2,02, contra R$ 2,44 no início do mês de março. O valor médio normal, considerando a paridade de poder de compra, tendo por referência o mês de janeiro de 1999 (mês em que o Brasil passou ao sistema de câmbio flutuante), seria atualmente um valor ao redor de R$ 2,16 por dólar.
Esse movimento cambial tem algumas razões e particularmente uma série de consequências. No lado das razões, encontramos, sobretudo, a posição deliberada dos EUA em, mais uma vez, deixar a sua moeda perder valor visando melhorar o saldo da balança comercial e, especialmente, melhor rolar a dívida pública, que gira ao redor de US$ 12 trilhões.
Isso auxilia a melhor enfrentar a crise econômica, transferindo para o resto do mundo parte da conta a ser paga. E a situação pode não parar aí! Alguns analistas começam a projetar um câmbio por volta de R$ 1,80 para o final do ano.
Paralelamente, no capítulo das consequências vamos encontrar os efeitos sobre as demais economias do mundo.
Em primeiro lugar, a tendência será estimular importações nesses países, na medida em que suas moedas ficam mais fortes, quando há necessidade de exportar mais para recuperar a economia.
Em segundo lugar, países credores dos EUA, caso da China, que possuem bilhões de dólares em títulos estadunidenses, veem suas poupanças externas caírem fortemente, fragilizando seu poder de reação à crise econômica mundial.
Em terceiro lugar, países como o Brasil, além de perderem ganhos no setor exportador, assistem a um novo inchaço bursátil, devido à entrada maior de dólares.
Volta a sobrevalorização cambial (II)
Nesse sentido, o Banco Central brasileiro voltou a comprar dólares procurando sustentar o câmbio acima de R$ 2,00, pelo menos.
Na prática, estamos assistindo a um aquecimento artificial, pois especulativo, da Bovespa, antes mesmo de termos saído de uma crise mundial que teve, dentre seus fatores causadores, exatamente esse tipo de movimento nas bolsas do mundo.
Ou seja, parece que a lição não foi aprendida pelo capital financeiro, exigindo maior rapidez na colocação em prática de ações reguladoras desse mercado, expostas quando da reunião do G20 em 02 de abril passado.
A realidade cambial, portanto, nos informa que a crise atual está longe de terminar, pois elementos causadores da mesma estão se retroalimentando a partir de medidas individuais que pretendem ser solução, porém, sem consistência.
De tal forma que a economia real continua despencando, com o crescimento medido pelo PIB, junto aos diferentes países, em forte recuo para 2009. Os EUA atingiram um PIB anualizado, no primeiro trimestre do ano, de -6,1%. A zona euro flerta com um PIB de -4% na média de seus países.
O Japão, que é a segunda economia do mundo, está diante da possibilidade de viver a pior recessão dos países industrializados, com um PIB de -6,6% para 2009, após um recuo de 0,6% em 2008. Isso tende a carregar junto a Ásia inteira, inclusive a China, que luta para sobreviver à crise.
A queda é monumental no Japão, sendo que a produção industrial do país recuou em 40% no mês de fevereiro passado. Para se ter uma ideia do desastre, na famosa recessão de 1990 tal atividade recuou apenas 10% naquele país.
E no estouro da bolha da Internet, no início dos anos 2000, o recuo ficou em 14%.
Para piorar, o governo japonês está sem poder de reação já que a dívida pública local atinge 180% do PIB, podendo chegar a 200% no final de 2009