O perigo escondido por trás do combustível barato
“Muito do subsídio é captado pelas famílias ricas, por exemplo"
“Muito do subsídio é captado pelas famílias ricas, por exemplo" - Foto: Divulgação
Os subsídios aos combustíveis têm sido utilizados como instrumento para conter pressões inflacionárias e suavizar oscilações de preços no curto prazo. No entanto, estudos recentes apontam que essa estratégia pode gerar efeitos adversos ao longo do tempo, especialmente nas contas públicas e na percepção de risco econômico.
Segundo o professor de Finanças Rafael Baptista Palazzi, do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP, essas políticas transferem parte da volatilidade dos preços internacionais do petróleo para o setor público. Em um país com forte dependência do transporte rodoviário, o impacto das variações externas é imediato, o que leva à adoção de mecanismos para conter aumentos abruptos. Esse alívio inicial, embora relevante em momentos de pressão inflacionária, tende a criar desequilíbrios fiscais.
“Principalmente no Brasil, a gente depende muito, por exemplo, da matriz energética para a logística, ou seja, utilizamos a maior parte dos caminhões para fazer todo o transporte dentro do País. E boa parte desses caminhões consomem diesel, então, quando tem essa pressão, principalmente dos preços internacionais, gera um impacto rápido, que a gente chama de curto prazo. Assim, o governo tenta, de alguma forma, criar um mecanismo de controlar isso para impedir que esse impacto ocorra”, comenta.
Esse aumento da dívida influencia diretamente a percepção de risco por parte dos investidores. Com maior incerteza fiscal, cresce a exigência por prêmios mais elevados para financiar títulos públicos, elevando o chamado risco soberano. Esse movimento pode encarecer o crédito e afetar a estabilidade econômica no médio e longo prazo.
O histórico recente mostra tentativas de reduzir essa distorção, como a política que vinculava os preços internos ao mercado internacional. Ainda assim, eventos como paralisações no setor de transporte evidenciaram a sensibilidade da economia à dinâmica dos combustíveis.
“Muito do subsídio é captado pelas famílias ricas, por exemplo, que têm um uso mais intensivo de energia, que possuem mais veículos. Ele atrasa também investimentos em energias renováveis, porque se o preço de algum bem aumenta, você vai procurar substituir ele por outro. Com o subsídio, você acaba atrasando essa busca por outra fonte alternativa”, conclui.