Por que você pode estar errado sobre alimentos “seguros”
Na ciência regulatória, há uma distinção clara entre perigo e risco
Na ciência regulatória, há uma distinção clara entre perigo e risco - Foto: Divulgação
A forma como o risco é percebido no cotidiano nem sempre acompanha os critérios técnicos utilizados pela ciência. No debate sobre insumos agrícolas, essa diferença tem levado a interpretações simplificadas, que tratam produtos como totalmente seguros ou perigosos, ignorando fatores como exposição, dose e contexto.
O engenheiro agrônomo Luís Eduardo Pacifici Rangel destaca que a avaliação de risco envolve múltiplas dimensões e pode variar conforme a situação. Um exemplo doméstico ilustra essa lógica ao mostrar como diferentes pessoas priorizam riscos distintos em uma mesma tarefa, evidenciando que o risco não é uma característica fixa, mas depende da forma como é analisado.
Na ciência regulatória, há uma distinção clara entre perigo e risco. Enquanto o perigo está ligado ao potencial de causar dano, o risco considera a probabilidade desse dano ocorrer em condições reais. Essa diferença é central para análises toxicológicas e ambientais, mas costuma ser ignorada fora do ambiente técnico.
O debate em torno do glifosato reflete essa distorção. Apesar de amplamente estudado e avaliado por agências regulatórias, o produto é frequentemente associado a percepções negativas. Segundo o texto, quando analisado dentro de critérios técnicos, apresenta baixo risco relativo entre herbicidas modernos, o que explica sua permanência no mercado global.
No extremo oposto, bioinsumos são muitas vezes vistos como soluções naturalmente seguras. No entanto, também podem apresentar riscos e exigem o mesmo rigor científico na avaliação. A associação entre “natural” e “seguro” é apontada como uma simplificação que pode distorcer o debate.
A percepção de risco também influencia hábitos de consumo e decisões cotidianas. Produtos domésticos e alimentos são avaliados mais pela aparência ou familiaridade do que por critérios técnicos, reforçando a distância entre percepção e realidade.
O texto conclui que a agricultura moderna opera sob forte base científica e regulatória, mas esse conhecimento ainda é pouco acessível ao público. Reduzir essa distância é apontado como essencial para um debate mais equilibrado e baseado em evidências.