
Origem
O girassol (Helianthus annuus L.) teve inicialmente o Peru definido como seu centro de origem, porém, pesquisas arqueológicas revelaram o uso do girassol por índios norte-americanos, com pelo menos uma referência indicando o cultivo nos Estados de Arizona e Novo México, por volta de 3000 anos a. C. Estudos indicam que a domesticação do girassol ocorreu principalmente, na região do México e sudoeste dos EUA, mas podia ser encontrado por todo continente americano devido à disseminação feito por ameríndios, os quais selecionavam plantas com apenas uma haste. Eles usavam as plantas com propósitos de alimentação, além de medicinais e decorativos.
Difusão geográfica
Europa e América do Norte
Em 1510, o girassol foi levado, por conquistadores espanhóis, do continente americano para o Jardim Botânico de Madri, Espanha (PUTT, 1997). Inicialmente o interesse foi como planta ornamental, mas também havia o uso alimentício. No final do século XVI, o girassol foi difundido para diversas partes da Europa.
A migração para o leste Europeu ocorreu por volta do século XVIII, e foi em 1769, que o girassol foi citado pela primeira vez na Rússia como planta comercial. Desse modo, nos anos subsequentes, esse país iniciou um programa de fomento à cultura, investindo no melhoramento genético e extração de óleo do girassol. No século XX, tornou-se umas das culturas mais importantes com cerca de 150 mil hectares cultivados.
Após ser melhorado no continente europeu, por volta de 1880, o girassol é reintroduzido nos EUA, por fazendeiros americanos. Inicialmente, o uso foi como planta forrageira e posteriormente como oleaginosa, com a introdução de cultivares com bom rendimento e alto teor de óleo.
Brasil
O cultivo do girassol no Brasil iniciou no século XIX, na região Sul, provavelmente trazida por colonizadores europeus que consumiam as sementes torradas e fabricavam uma espécie de chá matinal.
A primeira indicação de cultivo comercial data de 1902, em São Paulo, quando a Secretaria da Agricultura distribuiu sementes aos agricultores. Na década de 30, o girassol foi indicado como planta de muitas aptidões como produtora de silagem, oleaginosa, alimentação de aves, entre outros.
Os primeiros cultivos comerciais ocorreram no Rio Grande do Sul, porém não obtiveram sucesso, pela falta de adaptação dos cultivares e competição com a área de soja. O Instituto Agronômico de Campinas (IAC), em 1937, inicia estudos científicos com o girassol.
Na década de 1960 em São Paulo, houve o estímulo do cultivo, pelos órgãos de governo. A fábrica de óleos vegetais Aguapeí Ltda. incentivou o cultivo da oleaginosa, porém, devido à falta de mercado e tecnologia adaptada às condições brasileiras, ocorreu o insucesso do projeto.
Os prejuízos causados pela ferrugem, aliados à falta de informação mais precisa sobre correção de solo, bem como ao baixo teor de óleo dos materiais genéticos brasileiros, desestimularam o cultivo de girassol em São Paulo, que teve área de 5.324 ha em 1966/67 reduzida para menos da metade (1.500 ha), na safra 1972/73.
De maneira geral, até os últimos anos da década de 1970, o girassol não conseguiu se estabelecer no Brasil como cultura expressiva, pois não conseguia competir com outras opções agrícolas mais atraentes, como o milho, a soja, o amendoim, o algodão, além do baixo nível tecnológico do seu cultivo.
No fim da década de 1970, houve um grande incentivo e entusiasmo pelo cultivo de girassol, já que nesse período o governo determinou o aumento das pesquisas sobre oleaginosas, visando à
substituição do petróleo pelos óleos vegetais. O centro desse movimento se deu no oeste do estado do Paraná, onde se dispunha de alguma pesquisa local pelo Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR). A produção ocorria de janeiro a março (segundo cultivo de verão). O rendimento em 1980 chegou a 1800 kg ha-1, contudo em 1983 a produtividade caiu para 460 kg ha-1, em decorrência ao ataque severo de doenças fúngicas, prioritariamente Sclerotinia sclerotiorum, decorrido do excesso de umidade no fim do ciclo.
Logo, em 1983 a área cultivada passou pra um terço de 1981. Também em 1981, o então Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Embrapa, atual Embrapa Soja, realiza a 1ª Reunião Nacional de Girassol, reflexo dos investimentos em pesquisa pelo governo.
Na década de 1990, diversas empresas, como indústria Ouro Verde em Goiás e Esteve Irmãos S/A em São Paulo, se propuseram a fomentar a produção de girassol, entretanto por motivos comerciais ocorreu novamente o insucesso da iniciativa. Já no final da década, em 1998, algumas empresas obtiveram sucesso na implementação do fomento para girassol. Na região Sul, por exemplo, cooperativas se uniram para incentivar a produção, o que parece ter viabilizado a cultura na respectiva região. Além da iniciativa na região Centro Oeste, pela empresa Caramuru em Goiás, utilizando o mesmo maquinário das culturas de soja e milho e aproveitando a característica de tolerância à seca. Para a indústria, fica a vantagem de receber mais uma matéria prima, evitando a ociosidade no período da entressafra das culturas de verão. Para o consumidor, aumenta a oferta de um óleo comestível de excelente qualidade.
Atualmente, outras indústrias buscam fomentar o cultivo de girassol, principalmente nos estados do Paraná e São Paulo, além da produção, mesmo que modesta, nas áreas de reforma de cana. Recentemente, as últimas estimativas de safra pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), apontaram uma área em torno de 70 mil hectares, sendo os estados de Mato Grosso, Goiás e Rio Grande do Sul os maiores produtores do Brasil, acumulando mais de 90% da produção. O rendimento médio brasileiro está por volta de 1500 kg ha-1, porém em lavouras mais tecnificadas pode-se alcançar a faixa de 2400 kg ha-1.
Os desafios que o girassol enfrenta no Brasil são basicamente três: oferecer ao produtor uma alternativa, que em caráter complementar, possibilite uma segunda colheita, sobre a mesma área e no mesmo ano agrícola; oferecer mais uma matéria prima oleaginosa às indústrias de processamento de outros grãos, reduzindo sua ociosidade e finalmente, oferecer ao mercado um óleo comestível de alto valor nutricional.
A manutenção do crescimento gradual da cultura do girassol safrinha e silagem é uma perspectiva no cenário nacional. Também há o potencial uso do óleo como biocombustível, pela política nacional de biocombustíveis, porém o uso alimentício é bem mais vantajoso pelas suas características organolépticas. Desta forma, um mercado favorável deverá ser o principal propulsor do girassol no mercado nacional.
José Luis da Silva Nunes
Engenheiro Agrônomo, Dr. em Fitotecnia
Fonte
PESTANA, J.; CUNHA, D.A.; PRINIANO, I.V. A cultura do girassol. In.: PRIMIANO, I.V. (Editor). Piracicaba: Editora da USP. 2012. 69 p.