No ano em que comemora uma década de existência, a Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo) tem o que comemorar: nesse período, o número de associados aumentou e chegou às 65 empresas, em um mercado onde existem cerca de 150. Também houve avanços no trabalho de regulamentação do setor, que até pouco tempo atrás não tinha nenhuma regra ou exigência de fiscalização. “Temos feito um trabalho forte para viabilizar o marco regulatório do setor e com isso temos conseguido crescer no mercado brasileiro”, explica Clorialdo Roberto Levreiro, presidente da entidade.
Ele revela que nos últimos três anos, o segmento de nutrição especial cresceu cerca de 15%, graças aos bons resultados que os fertilizantes, tanto químicos quanto orgânicos (leia-se esterco, resíduos e biomassa), vêm mostrando aos produtores. “Os produtos vêm apresentando alto desempenho e sua eficácia se espalha também no boca a boca; com isso, o grau de adoção dos fertilizantes tem crescido”, revela o executivo.
Um levantamento feito pela consultoria BBAgro Global aponta que o faturamento da indústria de fertilizantes especiais aplicados via folha e sementes no Brasil gira em torno dos R$ 2 bilhões. “Desse valor, cerca de R$ 1,4 bilhão está nas mãos dos associados da Abisolo”, explica Franco Borsari, diretor da empresa, que também é a organizadora do V Fórum Abisolo e da 1ª FertiShow, que discutirão temas e desafios para o setor no início de agosto, em Ribeirão Preto (SP).
Borsari explica que no estudo foram feitas previsões para a evolução do mercado de fertilizantes foliares até 2022. Os dados utilizados são uma combinação de números colhidos pela própria consultoria, além de dados da Informa Economics FNP.
Segundo o levantamento, em 1999, eram consumidor no Brasil 17 milhões de litros desses produtos, volume que deve chegar a 119 milhões de litros neste ano e uma previsão de atingir 288 milhões de litros em 2022. O setor que mais utiliza fertilizantes especiais no país é a sojicultura, com 36% da demanda total. “Algumas culturas que hoje utilizam pouco ou quase nada desse tipo de tecnologia passarão a utilizá-las em maior escala, para viabilizarem o aumento de produtividade”, revela o consultor. Até 2022, a estimativa da consultoria é de que 52% do volume venha do consumo atual, 20% do aumento de dose do produto usado nas lavouras e outros 28% no aumento da adoção desses produtos.
Um dos setores que hoje utiliza um percentual baixo de fertilizantes, cerca de 4%, é o sucroenergético, que nas últimas safras vem amargando diminuição das safras graças ao envelhecimento dos canaviais, problemas climáticos e menores investimentos. “O problema da cana-de-açúcar não está concentrado no percentual de etanol misturado à gasolina. Está no aumento da produtividade por hectare e isso passa necessariamente por investimentos em nutrição”, explica Borsari. Segundo as previsões do estudo, até 2022 o segmento passará a consumir cerca de 24% desse tipo de produto no país.
Desafios
Produzir mais, com qualidade, segurança e sem aumentar a área cultivada. Este é um dos maiores desafios do setor agrícola brasileiro para os próximos anos. Nesse quesito, o segmento de fertilizantes especiais pode contribuir para que pequenos, médios e grandes produtores consigam resolver a equação sem grandes impactos, sejam eles econômicos ou ambientais. “E aí entra o nosso papel; temos trabalhado muito sobre a questão ambiental, construído parcerias com instituições para projetos de pesquisa e acompanhamos de perto o trabalho dos associados”, destacou Levreiro.
Além de incentivar a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias, Borsari revela que a Abisolo também vem trabalhando de forma permanente sobre dois pontos estratégicos para que o setor continue crescendo nos próximos anos: a criação e o fortalecimento do marco regulatório do setor junto ao governo e o pedido para o fim da cobrança do PIS/Cofins para alguns produtos que ainda não o têm, como é o caso dos micronutrientes. “Sempre brigamos pela desoneração fiscal, porque o setor está ligado diretamente à produção de alimentos, algo estratégico para o País”, explica Borsari. Os fertilizantes já possuem isenção de ICMS, mas os orgânicos, que são os produtos mais antigos do mundo, acabaram ficando para trás na questão.
Outro desafio está na inovação tecnológica, já que, segundo Levreiro, o setor se desenvolveu bastante durante os anos 70, período da Revolução Verde e depois acabou estagnando. “O segmento de fertilizantes foi o que menos evoluiu em termos tecnológicos nos últimos anos”, diz. Agora, ele explica que as indústrias do setor vem buscando investir na inovação tecnológica, fundamental para que o mercado siga crescendo.
Para Borsari, a nutrição adequada das plantas é um caminho para auxiliar na criação de defesas para a lavoura. “Já existem pesquisas internacionais que estão verificando a eficácia dos nutrientes na proteção e defesa das plantas”, diz. Na opinião do consultor, o Brasil precisa explorar melhorar as possibilidades de produção e de cultivo que tem e “um dos caminhos para isso é investir em nutrição e em tecnologias que aumentem a produtividade, a segurança e defesa das plantações”, avalia.
Outro ponto relevante na questão tecnológica está na competitividade dos produtos nacionais diante dos importados. Borsari enxerga essa competição como uma ameaça à indústria nacional, já que aponta a quase inexistência de barreiras tarifárias aos produtos importados. “Além disso, eles têm a tecnologia já consolidada e o know-how há mais tempo do que nós. O conhecimento que lhes falta do mercado brasileiro, acaba sendo conquistado com a contratação de profissionais por aqui ou compra de empresas do ramo”, alerta.