Por Rui Daher*
"Ai se alguém segura o leme
Dessa nave incandescente"
"Vira Virou", música e letra dos irmãos gaúchos Kleiton e Kledir, é sugestiva da ebulição que movimenta o setor de fertilizantes desde que a CVM, em 15/01, publicou como relevante o fato de a Vale estar negociando a compra de ativos de fertilizantes do Grupo Bunge no Brasil, "incluindo sua participação de 42,3% no capital acionário da Fosfértil S/A".
Passado menos de um mês, adquiridas as participações dos demais sócios - Mosaic (EUA), Yara (Noruega) e as nacionais Fertipar e Heringer - e gastos cerca de US$ 6,0 bilhões, a Vale ficou dona de 78,9% do capital da maior produtora nacional de matérias-primas de fertilizantes fosfatados e, junto com a Petrobras, da produção de nitrogenados.
Como no potássio a Vale já é solista, a produção de matérias-primas para a fabricação de adubos NPK ficou restrita a duas empresas, já que outro player importante na área de fosfatados, a Copebrás, do grupo sul-africano Anglo American, está à venda desde o ano passado.
Trata-se de uma ação de monta que, embora pareça inverter a mão do ocorrido nos anos 1990 quando grande parte da produção saiu do controle estatal para o privado e levou concentração extrema ao setor, por enquanto, pouco muda.
Esse complexo e a cadeia de fabricantes intermediários que irão gerar os cerca de 23 milhões de toneladas de adubos NPK entregues ao campo respondem apenas por 1/3 das necessidades do País. O resto vem de fora e assim permanecerá até que Vale e Petrobras completem seus planos de expansão.
É claro que o tempo irá fornecer pistas das vantagens que as Marias levaram.
A Vale precisava diversificar as suas atividades? Sofreu pressão do governo? Já estava no setor através do potássio? Tem a melhor logística do País? O potencial da agricultura brasileira garante o mercado? A demanda mundial de alimentos indica preços ascendentes para as commodities?
Se o leitor cravou "sim" é por que entendeu as razões da Vale. Se optou "não", evite suas ações na Bolsa.
Da parte dos vendedores, o negócio foi bom se analisado o valor da venda contra o pago pelos ativos na privatização mais os poucos investimentos realizados em quase 20 anos. E não o foi se considerarmos que, exceção às raras conjunções positivas de fatores, seus resultados sempre vieram a reboque do lucro da Fosfértil. Junte-se a isso uma possível indisposição diante do volume de recursos necessários para planos de expansão e os resultados negativos mal recebidos em suas matrizes.
Quando a coluna afirma que se trata de um movimento importante, mas de pouca consequência no momento, refere-se às suas repercussões na agricultura.
Difícil de diferenciar, o fertilizante é tratado como commodity. Suas cadeias de distribuição são amplas e longas: grandes produtores como os que venderam suas participações na Fosfértil, misturadores regionais, cooperativas, lojas agropecuárias. Dois fatores que elevam o grau da concorrência. Tanto que, na época, a privatização foi vista como uma forma de, com a posse da matéria-prima, administrar oferta e preços, e assim equilibrar o mercado.
O plano funcionou até que o crescimento da demanda interna forçou o aumento das importações, o controle da oferta desandou e, apesar do grau de concentração superior ao do passado, a concorrência voltou e os resultados pioraram.
Como as empresas que deixaram a Fosfértil respondem por quase 75% do mercado final e anunciam manter suas marcas na ponta, não se sabe se com garantia de suprimento pela Vale, aumenta o risco de um mercado ofertado, com acirramento da concorrência e o surgimento de grupos mais vigorosos de misturadores regionais. Isto, enquanto a produção nacional não voltar a ser suficiente.
A nave está incandescente, mas ainda ancorada no porto.
*Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.
"Vira Virou", música e letra dos irmãos gaúchos Kleiton e Kledir, é sugestiva da ebulição que movimenta o setor de fertilizantes desde que a CVM, em 15/01, publicou como relevante o fato de a Vale estar negociando a compra de ativos de fertilizantes do Grupo Bunge no Brasil, "incluindo sua participação de 42,3% no capital acionário da Fosfértil S/A".
Passado menos de um mês, adquiridas as participações dos demais sócios - Mosaic (EUA), Yara (Noruega) e as nacionais Fertipar e Heringer - e gastos cerca de US$ 6,0 bilhões, a Vale ficou dona de 78,9% do capital da maior produtora nacional de matérias-primas de fertilizantes fosfatados e, junto com a Petrobras, da produção de nitrogenados.
Como no potássio a Vale já é solista, a produção de matérias-primas para a fabricação de adubos NPK ficou restrita a duas empresas, já que outro player importante na área de fosfatados, a Copebrás, do grupo sul-africano Anglo American, está à venda desde o ano passado.
Trata-se de uma ação de monta que, embora pareça inverter a mão do ocorrido nos anos 1990 quando grande parte da produção saiu do controle estatal para o privado e levou concentração extrema ao setor, por enquanto, pouco muda.
Esse complexo e a cadeia de fabricantes intermediários que irão gerar os cerca de 23 milhões de toneladas de adubos NPK entregues ao campo respondem apenas por 1/3 das necessidades do País. O resto vem de fora e assim permanecerá até que Vale e Petrobras completem seus planos de expansão.
É claro que o tempo irá fornecer pistas das vantagens que as Marias levaram.
A Vale precisava diversificar as suas atividades? Sofreu pressão do governo? Já estava no setor através do potássio? Tem a melhor logística do País? O potencial da agricultura brasileira garante o mercado? A demanda mundial de alimentos indica preços ascendentes para as commodities?
Se o leitor cravou "sim" é por que entendeu as razões da Vale. Se optou "não", evite suas ações na Bolsa.
Da parte dos vendedores, o negócio foi bom se analisado o valor da venda contra o pago pelos ativos na privatização mais os poucos investimentos realizados em quase 20 anos. E não o foi se considerarmos que, exceção às raras conjunções positivas de fatores, seus resultados sempre vieram a reboque do lucro da Fosfértil. Junte-se a isso uma possível indisposição diante do volume de recursos necessários para planos de expansão e os resultados negativos mal recebidos em suas matrizes.
Quando a coluna afirma que se trata de um movimento importante, mas de pouca consequência no momento, refere-se às suas repercussões na agricultura.
Difícil de diferenciar, o fertilizante é tratado como commodity. Suas cadeias de distribuição são amplas e longas: grandes produtores como os que venderam suas participações na Fosfértil, misturadores regionais, cooperativas, lojas agropecuárias. Dois fatores que elevam o grau da concorrência. Tanto que, na época, a privatização foi vista como uma forma de, com a posse da matéria-prima, administrar oferta e preços, e assim equilibrar o mercado.
O plano funcionou até que o crescimento da demanda interna forçou o aumento das importações, o controle da oferta desandou e, apesar do grau de concentração superior ao do passado, a concorrência voltou e os resultados pioraram.
Como as empresas que deixaram a Fosfértil respondem por quase 75% do mercado final e anunciam manter suas marcas na ponta, não se sabe se com garantia de suprimento pela Vale, aumenta o risco de um mercado ofertado, com acirramento da concorrência e o surgimento de grupos mais vigorosos de misturadores regionais. Isto, enquanto a produção nacional não voltar a ser suficiente.
A nave está incandescente, mas ainda ancorada no porto.
*Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.


