No Brasil, em se plantando tudo dá. No entanto, o País campeão em resultados agrícolas é carente das principais matérias-primas para a produção de fertilizantes: da famosa fórmula NPK dos adubos, 51% do fósforo (P) é importado, 75% do nitrogênio (N) também e no caso do potássio (K) esse índice sobe para 91%. No total, importamos 73% da demanda interna. No caso do Rio Grande do Sul, a situação é ainda mais grave, já que o Estado precisa importar 100% desses componentes. Para tentar reverter esse quadro, o governo federal lançou recentemente o Plano Nacional de Fertilizantes, cujo maior desafio é tornar o País autossuficiente na produção de adubos, com base na existência em território nacional de jazidas e depósitos de potássio e fósforo a serem explorados.
Porém especialistas do setor asseguram não ser tão fácil assim chegar à independência do mercado externo. "Não conheço país no mundo que tenha autossuficiência em fertilizantes. E, no caso do Brasil, no máximo vamos nos tornar menos dependentes, mas não autossuficientes", avalia o diretor da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), Eduardo Daher.
Mesmo para chegar a uma produção razoável, que pudesse minimizar os custos com importação, seria preciso esforços e investimentos muito grandes. Como no caso do nitrogênio, que depende dos resultados do pré-sal e do gás natural da Petrobras. O País tem uma jazida de potássio em Sergipe, com três depósitos, um em exploração pela mineradora Vale e outros dois, mas todos estão no aguardo de incentivos. O governo federal pretende verificar a possibilidade de encontrar potássio em localidades que vão desde o Recôncavo Baiano até o Espírito Santo. No caso do fosfato, dez jazidas já estão sendo exploradas em Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Bahia e Sergipe. Há, ainda, algumas jazidas já identificadas que precisam ser lavradas em seis estados, todas ainda em fase de prospecção.
O presidente do Sindicato da Indústria de Adubos do Rio Grande do Sul (Siargs), Torvaldo Marzolla, ressalta a importância de se investir cada vez mais em pesquisas para que sejam descobertas mais reservas, tanto de potássio, como de fósforo. "Foi localizada uma fonte de potássio no Amazonas, mas é no meio da floresta, dentro de uma reserva indígena, o que inviabiliza a logística", diz o dirigente do Siargs.
Marzolla destaca que, na busca pela independência na produção de adubos, é importante que sejam pensadas alternativas fora das convencionais. "Vamos produzir nitrogênio a partir de resíduos de couro, não vai resolver o problema, mas ajudará muito", defende.
Gargalo logístico é apontado como prioridade pela indústria
Para os especialistas, mesmo que o País pudesse chegar à autossuficiência na produção de adubos, o que possibilitaria a redução dos preços dos produtos, emperraria na questão logística. "De que adianta produzir fertilizantes em outros estados se para trazer para o Rio Grande do Sul, por exemplo, sai muito mais caro fazer o frete rodoviário, pagando ICMS, do que importar", aponta o presidente do Sindicato da Indústria de Adubos do Rio Grande do Sul (Siargs), Torvaldo Marzolla.
Seguro de que poderá levar a cabo o projeto, o governo federal já estipulou inclusive prazos para chegar à produção plena dos componentes da fórmula dos fertilizantes: "no caso dos nitrogenados isso poderia ocorrer no prazo de cinco anos, dos fosfatados, de seis a oito anos e, do potássio, num prazo máximo de 10 anos."
O diretor da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), Eduardo Daher, acredita que muito antes de pensar em autossuficiência, o governo deveria se concentrar em demandas importantes para o setor, como a questão da isonomia tributária, já que os produtos importados entram no País isentos de taxas, além da redução do ICMS pago para fretes interestaduais. "Além disso, investimentos em logística, com rodovias em boas condições e aumento dos calados dos portos, são imprescindíveis", reivindica.
Autossuficiência de adubos está distante
No RS a situação é ainda mais grave, já que o Estado precisa importar 100% dos componentes
Por Ana Esteves
04/05/2009 00h00 · Fonte: Jornal do Comércio


