Por Aline Merladete com colaboração e revisão de Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo
A escolha da cultivar de trigo deve estar alinhada à época de semeadura e às condições de cada região. A combinação entre genética, clima e data de plantio interfere no potencial de rendimento, na estabilidade da produção e na exposição da lavoura a riscos como geadas, doenças, calor e déficit hídrico durante as fases reprodutivas.
No Paraná e no Rio Grande do Sul, o planejamento envolve também o uso das áreas ao longo do ano, a sucessão com culturas como soja e milho e as janelas indicadas para o plantio. Entre as características que devem ser avaliadas estão o ciclo da cultivar, a exigência em frio, a resposta ao fotoperíodo e o perfil fitossanitário.
A época de semeadura é importante porque define, junto com o ciclo da cultivar, em que momento ocorrerão fases sensíveis como espigamento, florescimento e enchimento de grãos. O material aponta três riscos relacionados ao calendário: geadas fortes durante o espigamento e o início do enchimento, excesso de chuva no período de colheita e ocorrência de calor ou déficit hídrico no final do ciclo.
Por isso, uma mesma cultivar pode apresentar níveis diferentes de exposição a riscos quando semeada em períodos distintos. O planejamento também deve levar em conta o sistema produtivo, altitude e latitude da área, histórico de doenças e infraestrutura disponível para colheita e secagem.
O conteúdo destaca que não existe uma cultivar adequada para todas as regiões e épocas. A orientação apresentada é trabalhar com um conjunto de materiais de ciclos e características diferentes, distribuídos entre as janelas permitidas pelo zoneamento.
Entre os primeiros critérios a serem observados está o grupo de maturação. As cultivares podem ser classificadas como superprecoces, precoces, médias ou tardias. A duração aproximada do ciclo, entre emergência e maturação fisiológica, também deve ser considerada conforme as condições de cada região.
Outro aspecto é a exigência em vernalização. Cultivares com maior necessidade de frio precisam acumular determinado período de baixas temperaturas para emitir a espiga normalmente. Já materiais com pouca ou nenhuma exigência em frio são apontados como mais adequados para semeaduras tardias ou ambientes menos frios.
Segundo Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo, a geração de novas cultivares por meio do melhoramento genético tem permitido a expansão da cultura do trigo para áreas tropicais, onde as temperaturas médias são mais elevadas, tanto em cultivos de sequeiro quanto irrigados.
A resposta ao fotoperíodo também interfere no desenvolvimento. A sensibilidade ao comprimento do dia pode alterar a duração da fase vegetativa e o momento do espigamento. Fontoura explica que cultivares mais sensíveis podem apresentar modificações no ciclo de acordo com a época de semeadura, a fertilidade do solo, a altitude e as condições de luminosidade.
O perfil sanitário deve ser analisado em conjunto. Entre as doenças citadas estão ferrugem da folha, ferrugem do colmo, mancha amarela, oídio, giberela e brusone. Para semeaduras mais tardias, quando a fase reprodutiva pode ocorrer em condições mais quentes e úmidas, o conteúdo indica atenção maior à sanidade das espigas.
A qualidade tecnológica dos grãos também faz parte da decisão. Classificação industrial, força de glúten, estabilidade de massa e teor de proteína estão entre os atributos mencionados. A cultivar escolhida deve ser compatível com o destino da produção, que pode envolver indústria, cooperativa, exportação ou utilização dentro da propriedade.
De acordo com Ubirajara Fontoura, com a evolução tecnológica também vem ocorrendo expansão dos Sistemas Integrados de Produção, com destaque para a Integração Lavoura-Pecuária (ILP). O agrônomo destaca o crescimento do uso de cultivares de trigo de “duplo propósito”, que permitem o pastejo por bovinos e outros animais e, posteriormente, a colheita dos grãos, especialmente em lavouras irrigadas.
Além das características agronômicas, a recomendação regional e a janela de semeadura precisam ser verificadas. Fontoura reforça a importância de seguir as indicações e recomendações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), considerando as datas recomendadas para cada cultivar, o clima, o solo, o nível de fertilidade e outros riscos associados.
A relação entre ciclo e data de plantio é um dos pontos centrais do planejamento. A data de semeadura, somada à duração do ciclo, posiciona o espigamento e o enchimento dos grãos em determinados períodos do ano. O objetivo é reduzir a exposição dessas fases a condições climáticas desfavoráveis.
Nas semeaduras mais precoces, dentro da janela recomendada, podem ser utilizados materiais de ciclo médio a tardio, desde que estejam adaptados à região. Nessa situação, também é necessário observar o risco de geadas durante o espigamento, principalmente em áreas de maior altitude.
As semeaduras intermediárias permitem, de acordo com o material, a utilização de uma faixa mais ampla de cultivares, incluindo materiais precoces e de ciclo médio. Essas épocas tendem a proporcionar um equilíbrio entre a exposição a geadas e o risco de chuvas excessivas durante a colheita.
Já no final da janela de semeadura, a indicação apresentada é priorizar materiais mais precoces ou superprecoces e com menor exigência de vernalização. Plantios tardios podem fazer com que o enchimento dos grãos ocorra sob temperaturas mais elevadas e maior pressão de doenças de espiga.
O posicionamento inadequado da cultivar pode trazer consequências ao longo da safra. Entre os exemplos apresentados está o risco de materiais de ciclo longo semeados tardiamente chegarem ao espigamento em períodos ainda sujeitos a geadas intensas, com possibilidade de esterilidade das espigas e queda de produtividade.
Outro risco é o enchimento dos grãos ocorrer sob temperaturas elevadas e déficit hídrico, reduzindo o peso de mil grãos e a qualidade. Semeaduras muito tardias combinadas com materiais de ciclo maior também podem deslocar a colheita para períodos mais chuvosos, aumentando a possibilidade de germinação na espiga, brotamento e perdas qualitativas.
O calendário ainda precisa ser compatível com as culturas seguintes. Na região Sul, Ubirajara Fontoura alerta que o atraso na colheita do trigo pode comprometer a implantação da soja ou do milho na janela planejada, afetando o sistema de produção da propriedade.
Para organizar a escolha das cultivares, o primeiro passo indicado é consultar o ZARC para o município e o tipo de solo, verificando as janelas de semeadura e os níveis de risco. O sistema de produção também deve ser considerado, incluindo sucessão de culturas, disponibilidade de máquinas e mão de obra e necessidade de antecipar ou postergar a colheita.
Depois, devem ser levantadas as cultivares recomendadas para a região, observando ciclo, exigência em frio, época indicada de semeadura e reação às doenças presentes no histórico da área.
Uma das estratégias sugeridas é combinar dois ou três grupos de ciclo. A distribuição entre materiais precoces, médios ou tardios pode escalonar espigamento e enchimento de grãos, reduzindo a concentração de toda a área em um único período de risco climático.
Dentro da janela permitida, materiais de ciclo médio ou tardio podem ser posicionados em semeaduras mais precoces, desde que o risco de geada no espigamento seja considerado. Cultivares precoces e superprecoces podem ser utilizadas mais próximas do limite final da janela para evitar que o ciclo avance excessivamente e desloque a colheita para épocas mais chuvosas.
O histórico sanitário também precisa participar dessa definição. Em áreas com ocorrência recorrente de giberela, ferrugens ou brusone, o conteúdo recomenda priorizar materiais com melhor resistência e, quando possível, ajustar a época de semeadura para reduzir a coincidência do florescimento com períodos de maior risco de infecção.
A definição da cultivar não funciona isoladamente. Fertilidade e condições do solo, população de plantas, manejo de pragas e doenças e estrutura de colheita e pós-colheita precisam estar alinhados ao material escolhido e à época de implantação.
As recomendações de época de semeadura e adaptação regional são específicas e resultam de avaliações conduzidas em diferentes locais e anos. Por isso, o próprio material orienta utilizar informações oficiais atualizadas e as fichas técnicas das cultivares, evitando transferir recomendações de uma região para outra sem respaldo técnico.
A decisão, portanto, envolve combinar características da cultivar, calendário da propriedade e riscos ambientais. Trabalhar dentro das janelas recomendadas e distribuir materiais com diferentes ciclos permite organizar o desenvolvimento da lavoura e reduzir a concentração das fases mais sensíveis em um mesmo período.