Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros avaliou a produção madeireira em áreas de concessão florestal. Eles avaliam que e nada for alterado, a iniciativa vai se esgotar em 35 anos.
As concessões florestais são feitas pelo Serviço Florestal Brasileiro e permitem extrair produtos madeireiros e não madeireiros, além de oferecer serviços de turismo, de forma legalizada e sustentável em longo prazo nas florestas amazônicas. As empresas concessionárias são selecionadas por processo de concorrência pública, que avalia as propostas técnica e de preço recebidas. Em contrapartida ao direito de manejar a área, as concessionárias repassam periodicamente ao governo valores definidos pelo contrato firmado. A execução dos contratos é minuciosamente acompanhada pelo Serviço Florestal Brasileiro por meio de ferramentas de monitoramento florestal.
O programa está em vigência desde 2006 e a área concedida é manejada em um sistema de rodízio, o que permite a produção contínua e sustentável de madeira. Apenas de quatro a seis árvores são retiradas por hectare, área equivalente a um campo de futebol oficial. O retorno à mesma área ocorrerá a cada 25 a 30 anos, garantindo o tempo necessário para a recuperação plena da floresta manejada. Atualmente estão em concessão as Flonas do Jamari e Jacundá, em Rondônia e as do Saracá-Taquera, Saracá-Taquera Lote Sul, Crepori, Altamira e Caxiuanã, no Pará.
Os pesquisadores explicam que as concessões florestais na Amazônia brasileira cobrem atualmente apenas 1,6 milhões de ha (Mha), mas estima-se que a área total do potencial de concessões seja de 35 Mha.
“Avaliamos as condições sob as quais o sistema de concessão atual e potencial pode garantir uma produção anual de 11 Mm3.ano–1 para atender à demanda atual estimada de madeira”, destaca Edson Vidal, docente do departamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), um dos autores do estudo.
Para isso foram testados 27 cenários diferentes, usando combinações de proporção inicial de volume comercial, extração de madeira, intensidade e período do ciclo de corte. O resultado mostrou que apenas o cenário com uma intensidade de extração de 10 m3.ha-1 a cada 60 anos com uma proporção inicial de 90% de madeira de espécies comerciais podem ser consideradas sustentáveis.
Nesse cenário, a produção anual máxima com a atual área de concessão seria de 159.000 m3 (157-159), ou menos de 2% da produção anual atual de 11 Mm3. Quando considerando todas as áreas potenciais para concessão (35 Mha), sob as regras atuais, a produção anual total é de 10 Mm3.ano−1 (2–17 Mm3.ano−1, intervalo de confiança de 95%), mas não é mantido após o primeiro ciclo de corte do manejo florestal. Sob um cenário mais sustentável e uma área de concessão de 35 Mha, a produção anual sustentável de longo prazo de madeira atingiria apenas 3,4 Mm3.ano-1.
Plinio Sist, pesquisador em ecologia de florestas tropicais do CIRAD e primeiro autor do artigo, conclui que o sistema de concessão não será capaz de suprir a demanda de madeira sem reformas substanciais nas práticas de manejo de florestas naturais e no setor da indústria madeireira. “Nosso estudo mostra que as florestas naturais sozinhas não podem atender às necessidades de madeira. Portanto, é urgente estabelecer um sistema florestal diversificado agora e desenvolver outras fontes de madeira, por exemplo, por meio de plantações de madeira mista, agroflorestas ou o manejo de florestas secundárias".
O estudo foi publicado no periódico Forest Ecology and Management e pode ser visto neste link.