Por Aline Merladete com colaboração e revisão de Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo
Identificar corretamente as fases de desenvolvimento do trigo é uma das bases para ajustar o manejo da lavoura ao longo do ciclo. Da emergência à maturação fisiológica, mudanças na planta indicam momentos distintos para acompanhar o estabelecimento da cultura, a sanidade, o desenvolvimento das espigas e o planejamento da colheita. Segundo Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo, a identificação desses estádios também auxilia na definição do momento mais adequado para a aplicação das diferentes práticas de manejo.
A fenologia descreve justamente essa sequência de desenvolvimento e sua relação com fatores ambientais, entre eles clima, fotoperíodo e temperatura. Para acompanhar a cultura, podem ser utilizados códigos da escala de Zadoks ou uma divisão simplificada em emergência, perfilhamento, alongamento do colmo, emborrachamento, espigamento, florescimento, enchimento de grãos e maturação.
Em condições consideradas típicas do Sul do Brasil, o ciclo do trigo pode durar em torno de 110 a 150 dias entre a emergência e a maturação fisiológica. Fontoura explica que esse período pode variar entre as diferentes regiões tritícolas brasileiras, de acordo com a cultivar, o clima e a época de semeadura.
Os primeiros cuidados começam logo após o plantio. Na germinação, a semente absorve água e emite a primeira raiz e o coleóptilo. A emergência é caracterizada pela passagem do coleóptilo pela superfície do solo e pelo surgimento da primeira folha verdadeira.
Nessa etapa, falhas de plantio, profundidade inadequada, compactação e encharcamento podem comprometer o estabelecimento. Temperaturas muito baixas ou altas e condições de excesso ou falta de água também podem atrasar ou tornar a emergência desuniforme. A distribuição das plantas nessa fase define o estande inicial e influencia o potencial produtivo.
Com a emissão de duas a três folhas verdadeiras, começa o perfilhamento. As brotações laterais aparecem próximas ao nível do solo e fazem com que vários colmos passem a sair de um mesmo ponto da planta.
De acordo com o engenheiro agrônomo Ubirajara Fontoura, o perfilhamento é, em grande parte, expressão da característica genética da variedade e indica o número potencial de espigas por área. Nem todo perfilho formará uma espiga, mas o desenvolvimento dessa estrutura depende de fatores como densidade de semeadura, disponibilidade de nitrogênio e água, luminosidade e temperatura. Estresses nesse período podem limitar a emissão de perfilhos e reduzir o potencial de rendimento.
É também uma etapa utilizada para orientar ajustes na adubação nitrogenada em cobertura. O controle das plantas daninhas ganha importância porque a competição precoce por luz, água e nutrientes pode prejudicar tanto o perfilhamento quanto o crescimento das raízes. Conforme destaca Fontoura, essa competição também pode reduzir o potencial de rendimento de grãos. Doenças foliares iniciais e pragas que atacam folhas jovens também devem ser monitoradas.
Depois do perfilhamento, começa o alongamento dos colmos. Os entrenós se distanciam, a planta aumenta de altura e a emissão de novos perfilhos perde intensidade. Enquanto isso, a diferenciação da espiga acontece dentro do colmo, ainda sem ser percebida externamente.
É uma fase importante para a formação do potencial produtivo da planta. Déficits hídricos e nutricionais significativos podem reduzir o número de espiguetas e flores por espiga. O material também aponta que decisões sobre complementação de nitrogênio muitas vezes são finalizadas nesse momento.
Na sequência ocorre o emborrachamento. A espiga já está formada, mas permanece dentro da bainha da folha bandeira. O estádio pode ser reconhecido pelo inchaço na região superior do colmo e pela presença da folha bandeira completamente expandida.
Essa folha tem participação importante na fotossíntese que sustentará posteriormente o enchimento dos grãos. Por isso, o período exige atenção à ocorrência de doenças nas folhas superiores. O monitoramento de chuva, molhamento foliar e temperatura também é apresentado como ferramenta para acompanhar o risco de epidemias de doenças.
Quando a espiga começa a sair da bainha da folha bandeira, tem início o espigamento. A exposição do órgão reprodutivo torna a lavoura mais sensível a chuvas intensas, ventos fortes e doenças específicas da espiga. Ubirajara Fontoura acrescenta que danos mecânicos, como os provocados pela ocorrência de granizo, também podem afetar a cultura nessa etapa. O agrônomo explica ainda que geadas tardias podem provocar prejuízos, incluindo abortamento de flores e rompimento de tecidos, dependendo da região, da época de cultivo e da intensidade do fenômeno.
O florescimento vem em seguida. As anteras podem ser observadas na espiga durante a liberação de pólen e, em muitas cultivares, a floração começa na região central e avança em direção às extremidades.
Segundo Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo, nessa etapa as plantas são sensíveis à ocorrência de doenças, geadas, calor excessivo e déficit hídrico. Estresses severos podem provocar abortamento de flores e reduzir o número de grãos por espiga. O estado nutricional e sanitário das plantas também interfere no processo de fecundação e fixação dos grãos.
Após a fecundação começa o enchimento de grãos. Inicialmente verdes, moles e aquosos, os grãos ganham massa, ficam mais firmes e passam gradualmente para uma tonalidade amarelada. Nesse estágio, os produtos formados pela fotossíntese, principalmente nas folhas superiores, são convertidos em amido e proteínas acumulados no grão.
A duração dessa fase influencia o resultado da cultura. De acordo com Fontoura, períodos de enchimento encurtados por estresses podem reduzir o peso do hectolitro (PH) e o peso de mil grãos (PMG), com consequente redução da produtividade e da qualidade das sementes. Embora grande parte das decisões de manejo já tenha ocorrido anteriormente, o acompanhamento de doenças continua necessário. O engenheiro agrônomo ressalta que a antecipação da senescência das folhas pode provocar paralisação no enchimento dos grãos.
O ciclo se aproxima do fim com a maturação fisiológica, quando o grão alcança seu máximo peso seco. A lavoura assume coloração amarelo-palha e as folhas secam. A partir desse momento, os estresses ambientais não reduzem mais o peso seco dos grãos, mas ainda podem prejudicar sua qualidade.
Entre os problemas associados ao atraso excessivo da colheita estão acamamento, perda por debulha natural e redução da qualidade industrial.
O planejamento deve equilibrar a redução da umidade, que pode diminuir a necessidade de secagem, com a exposição da lavoura aos riscos climáticos. A regulagem da colhedora também é apontada como importante para diminuir perdas e danos mecânicos.
Em relação ao calendário da cultura, Ubirajara Fontoura explica que, na região Sul, a semeadura ocorre geralmente do outono ao início do inverno, enquanto nas regiões de clima tropical pode ser antecipada. As fases vegetativas predominam no outono e inverno, enquanto espigamento, florescimento e enchimento ficam concentrados principalmente no final do inverno e na primavera. A maturação e a colheita tendem a ocorrer na primavera e no início do verão.
Esse calendário não é fixo. A época de plantio, a cultivar e o sistema de manejo fazem com que lavouras de uma mesma região possam apresentar estádios diferentes ao mesmo tempo. Fontoura acrescenta que a ocorrência de estresses também interfere nessa dinâmica. Por isso, a identificação da fase observada no campo deve ser relacionada ao histórico de semeadura e às condições de cada período para orientar as decisões ao longo do ciclo.