Por Aline Merladete com colaboração e revisão de Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo
A presença de manchas foliares nas fases iniciais do trigo não significa, por si só, que seja necessário aplicar fungicida. Entre o perfilhamento e o alongamento dos colmos, a decisão deve considerar a suscetibilidade da cultivar, o histórico da área, a intensidade e a evolução das lesões, as condições climáticas e a relação entre custo e benefício do controle.
As doenças podem começar nas folhas inferiores e avançar para partes superiores da planta quando encontram condições favoráveis. Entre as manchas citadas estão a mancha amarela, causada por Pyrenophora tritici-repentis, a mancha marrom ou helmintosporiose, associada a Bipolaris sorokiniana, e as septorioses, relacionadas a espécies de Zymoseptoria e Parastagonospora.
O processo pode começar a partir de inóculo presente em palhadas, sementes infectadas e plantas voluntárias. A dispersão ocorre principalmente por respingos de chuva e vento em curtas distâncias. A infecção é favorecida pela presença de água na superfície das folhas, provocada por chuva, orvalho ou neblina, associada a temperaturas amenas. Novos esporos formados nas lesões podem alcançar folhas mais novas e manter o ciclo da doença.
Entre maio e setembro, períodos úmidos e com temperaturas amenas são apontados como favoráveis ao desenvolvimento dessas doenças nas principais janelas de cultivo consideradas no conteúdo. O problema pode surgir já durante o perfilhamento, mas o simples aparecimento de sintomas nas folhas inferiores não determina automaticamente a necessidade de intervenção química.
Nas fases vegetativas, o trigo ainda está formando perfilhos férteis, desenvolvendo o sistema radicular e construindo sua área foliar. Lesões restritas às folhas inferiores nem sempre resultam diretamente em perdas significativas de rendimento. A preocupação aumenta quando as manchas avançam para folhas do terço médio e superior, principalmente à medida que a cultura se aproxima do emborrachamento e do espigamento.
A chegada da doença às folhas bandeira e sub-bandeira com alta severidade pode representar risco de perdas de produtividade em fases reprodutivas. Ao mesmo tempo, aplicações muito antecipadas, realizadas quando a severidade e o risco de avanço são baixos, podem acrescentar custo sem gerar ganho produtivo e ainda aumentar a pressão de seleção de resistência dos fungos aos fungicidas.
Por isso, não há indicação de uma data fixa para a primeira aplicação. Cultivares mais suscetíveis exigem acompanhamento mais frequente e podem justificar intervenção ainda no final do período vegetativo quando a doença apresenta intensidade significativa. Cultivares com maior nível de resistência podem tolerar determinada presença de sintomas nas folhas inferiores sem necessidade de aplicação antecipada.
O histórico da área também pesa na decisão. Sucessões envolvendo gramíneas, como trigo após cevada ou trigo após trigo, além da presença intensa de aveia ou azevém, podem favorecer maior acúmulo de inóculo na palhada. Áreas que apresentaram manchas severas em anos anteriores também demandam maior atenção durante o crescimento vegetativo.
As condições meteorológicas precisam ser avaliadas em conjunto. Chuva frequente, orvalho persistente e temperaturas amenas favorecem o avanço das manchas. Já períodos prolongados de tempo seco e baixa umidade relativa podem reduzir a progressão das doenças e permitir o adiamento ou, em algumas situações, a dispensa de uma aplicação durante o vegetativo.
Outro critério é observar onde as lesões estão localizadas. Pequenas manchas presentes apenas em folhas muito inferiores logo após a emergência tendem a apresentar menor relevância econômica. A atenção deve aumentar quando os sintomas alcançam o terço médio e mostram tendência de evolução rápida sob condições ambientais favoráveis.
O acompanhamento da lavoura é, portanto, parte central da tomada de decisão. A orientação apresentada é realizar visitas semanais ou quinzenais, conforme o risco climático e o histórico da área. A avaliação deve contemplar diferentes pontos da lavoura, preferencialmente em percurso em zigue-zague, evitando concentrar a observação apenas nas bordaduras.
Também é importante registrar a evolução das lesões, observando se permanecem nas folhas inferiores ou avançam para folhas mais jovens. O acompanhamento pode utilizar uma escala visual de severidade, com registro da porcentagem de área foliar lesionada, estádio de desenvolvimento e condições climáticas entre as avaliações.
Não existe, porém, um nível de dano único que possa ser aplicado a todas as situações. A relação entre severidade e perda varia de acordo com a cultivar, o ambiente e o manejo. Quanto mais a cultura se aproxima de fases como emborrachamento e espigamento e quanto mais altas forem as folhas afetadas, menor tende a ser a tolerância à presença das manchas.
O controle químico também deve fazer parte de uma estratégia mais ampla. Entre as práticas apresentadas estão a escolha de cultivares com melhor perfil de resistência, rotação com culturas não hospedeiras, tratamento de sementes, manejo da palhada e controle de plantas voluntárias de trigo entre as safras.
A aplicação durante o crescimento vegetativo tende a apresentar maior justificativa quando vários fatores de risco aparecem simultaneamente: cultivar suscetível, histórico de alta pressão de doença, aumento das manchas em direção ao terço médio, clima úmido com temperaturas amenas e intervalo suficiente até o emborrachamento ou espigamento para que a doença continue avançando.
Nesse cenário, a intervenção busca diminuir o inóculo e limitar o avanço da doença antes da emissão das folhas superiores. Em condições de baixa severidade, sintomas restritos às folhas inferiores e ambiente pouco favorável ao desenvolvimento das manchas, a aplicação pode ser postergada para fases em que o potencial de resposta econômica seja maior.
O manejo precisa ainda ser planejado até as fases reprodutivas. A alternância ou associação de fungicidas com diferentes mecanismos de ação é indicada para reduzir o risco de seleção de resistência, sempre seguindo orientações técnicas. As aplicações também devem considerar o conjunto de doenças presentes ou esperadas na lavoura, e não apenas as manchas foliares isoladamente.
Qualquer uso de fungicidas deve respeitar rótulo e bula, receituário agronômico e legislação vigente. O conteúdo também orienta o uso dos equipamentos de proteção individual previstos para a operação, cuidados com vento, temperatura e deriva, além do cumprimento dos intervalos de segurança, reentrada e procedimentos para descarte de embalagens.
Dessa forma, a decisão durante o crescimento vegetativo não deve ser baseada apenas na existência de manchas. A evolução da doença na planta, o ambiente, a cultivar e o histórico da lavoura precisam ser avaliados em conjunto para determinar se uma intervenção antecipada é necessária ou se o controle pode ser direcionado às fases seguintes do ciclo.
Segundo Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo, o adequado Manejo Integrado de Doenças do Trigo (MID) deve reunir prevenção, monitoramento e intervenção precisa. Fontoura explica que, para aumentar a eficiência do manejo e minimizar custos, a estratégia deve considerar o histórico da área, a suscetibilidade da cultivar, o clima previsto, o estádio de desenvolvimento da planta e o nível de severidade observado a campo.