Especialista em comércio exterior analisa os riscos comerciais para os exportadores brasileiros diante das relações com Estados Unidos, China e Argentina.
As mudanças nas relações comerciais do Brasil com Estados Unidos, China e Argentina colocam novos desafios para o agronegócio brasileiro em 2027. Tarifas de importação, concentração das exportações e exigências para acesso a mercados internacionais estão entre os fatores que podem influenciar os custos e a competitividade dos produtos nacionais.
O cenário é analisado por Anna Dolores Sá Malta, advogada especialista em comércio exterior, presidente da Associação Brasileira de Direito Aduaneiro e Fomento ao Comércio Exterior e ex-conselheira do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Para a especialista, o planejamento das empresas exportadoras precisa considerar riscos que vão além da produção e da negociação de preços.
“O agronegócio brasileiro tem uma presença consolidada no mercado internacional, mas está exposto a decisões comerciais que fogem ao controle dos exportadores. Uma mudança tarifária nos Estados Unidos, uma alteração na demanda chinesa ou novas exigências de importação podem afetar diretamente os custos e a competitividade dos nossos produtos. O planejamento precisa considerar esses riscos”, avalia.
Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), apresentados na análise, as exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 133,6 bilhões entre janeiro e setembro de 2026. A China liderou as compras, com US$ 44,06 bilhões, seguida pela União Europeia, com US$ 20,2 bilhões, e pelos Estados Unidos, com US$ 7,98 bilhões.
Entre os principais segmentos exportadores estiveram o complexo soja, as carnes, os produtos florestais, o café e o complexo sucroalcooleiro.
O desempenho comercial, entretanto, apresentou diferenças entre os destinos. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que as exportações brasileiras de todos os setores cresceram 10,4% entre janeiro e setembro, alcançando US$ 284,65 bilhões. As vendas para a China avançaram 12%, enquanto os embarques para os Estados Unidos recuaram 6,5%. Para a Argentina, a redução foi de 18,5%.
No mercado norte-americano, as medidas tarifárias adotadas desde 2025 seguem entre os pontos de atenção. Levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), citado na análise, aponta que as exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos somaram US$ 24,1 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, queda de 9,7% na comparação anual.
Na agropecuária, a retração chegou a 26,7%, enquanto os embarques do setor para os demais mercados cresceram 9,5% no mesmo período.
Em julho de 2026, novas sobretaxas norte-americanas chegaram, de forma combinada, a 37,5% para determinados produtos brasileiros. O tratamento comercial variou conforme a mercadoria, com carnes e cafés incluídos em listas de exceções. Também foi anunciada uma cota temporária adicional de 300 mil toneladas para determinadas importações de carne bovina entre setembro e novembro.
Para Anna Dolores, essas diferenças reforçam a importância de estabelecer responsabilidades claras nos contratos internacionais, especialmente diante de alterações nas tarifas de importação.
“As medidas adotadas pelos Estados Unidos nos últimos anos mostram como decisões de política comercial podem modificar rapidamente as condições de uma operação. Para o exportador brasileiro, é importante saber quem assume o custo de uma eventual sobretaxa, quais são as responsabilidades de cada parte e como o contrato prevê situações que podem comprometer a rentabilidade do negócio”, explica.
Outro fator relevante é a concentração das vendas brasileiras para a China. O país asiático respondeu por aproximadamente um terço das exportações do agronegócio nacional entre janeiro e setembro de 2026, especialmente nas cadeias de soja e carnes.
Embora represente um mercado de grande escala, essa participação também amplia a exposição dos exportadores às oscilações da demanda, às exigências sanitárias e às mudanças nas relações comerciais entre China e Estados Unidos.
“A China é um parceiro fundamental para o agronegócio brasileiro, mas a concentração das vendas em um único destino também representa uma exposição comercial. Se houver mudanças na demanda, nas exigências sanitárias ou nas condições de negociação, os efeitos podem ser sentidos por diferentes cadeias produtivas. Por isso, ampliar mercados é uma estratégia importante para reduzir a dependência de poucos compradores”, afirma.
Na América do Sul, a Argentina também aparece entre os mercados que exigem acompanhamento. A redução de 18,5% nas exportações brasileiras para o país até setembro ocorre em meio a diferenças políticas entre os governos brasileiro e argentino, mas o desempenho comercial não pode ser atribuído exclusivamente a esse fator.
Anna Dolores destaca que as relações entre os dois países também são determinadas por compromissos assumidos no Mercosul, pelas condições econômicas e pela capacidade de importação do mercado argentino.
“As diferenças políticas entre os governos não eliminam os compromissos comerciais existentes. O Mercosul possui regras e mecanismos próprios, que precisam ser observados pelos países integrantes. Para as empresas, o mais importante é acompanhar eventuais mudanças regulatórias, as condições de pagamento e a capacidade de importação do mercado argentino”, destaca.
A abertura de novos destinos comerciais surge como uma possibilidade para reduzir a concentração das exportações. Conforme os dados do Mapa citados na análise, o Brasil alcançou 700 novas aberturas de mercado para produtos agropecuários em 99 destinos desde 2023. Essas autorizações, entretanto, não representam necessariamente vendas efetivadas.
Entre as iniciativas mencionadas está o acordo Mercosul-EFTA, que estabelece condições preferenciais de comércio com países europeus. A aplicação dos benefícios começou em outubro de 2026 para a Islândia, com previsão de início em novembro na Noruega.
A especialista observa que a existência de acordos comerciais não garante, por si só, vantagens para os exportadores. O acesso às condições preferenciais depende do cumprimento de regras de origem, exigências sanitárias e procedimentos documentais.
“Os acordos comerciais podem abrir oportunidades, mas o benefício não é automático. O exportador precisa verificar se o produto está contemplado, cumprir as regras de origem, observar as exigências sanitárias e atender aos procedimentos documentais. Sem essa preparação, a empresa pode deixar de aproveitar uma condição tarifária favorável ou enfrentar problemas na operação”, ressalta.
Além da busca por novos mercados, a análise aponta a necessidade de revisar contratos internacionais, avaliar custos logísticos, certificações, prazos de entrega e condições de pagamento. A definição de responsabilidades sobre eventuais alterações tarifárias também pode reduzir incertezas nas operações comerciais.
O agronegócio brasileiro encerrou 2025 com aproximadamente US$ 169,1 bilhões em vendas externas. Para 2027, a avaliação apresentada por Anna Dolores indica que a competitividade dos exportadores dependerá também da capacidade das empresas de acompanhar mudanças regulatórias e administrar riscos nas relações com os principais parceiros comerciais.
“O exportador não pode depender apenas de uma boa oportunidade de venda. É necessário avaliar os riscos do mercado de destino, revisar contratos, acompanhar as mudanças tarifárias e verificar as exigências para cada produto. Em um cenário internacional sujeito a alterações nas políticas comerciais, a segurança jurídica passa a ser parte importante da competitividade”, afirma a especialista.