Nessa última terça-feira ocorreu, em Roma, a conferência da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) que discutiu a crise mundial dos alimentos, que vem ocasionando elevação significativa dos preços, gerando desabastecimento e provocando o aumento da miséria e da violência.
Muito se discute a respeito dos fatores que deram origem a esta crise. Uns afirmam que é uma decorrência da alta do preço dos combustíveis, outros citam a queda da cotação do dólar e a especulação no mercado internacional de commodities. Há ainda quem fale na queda da produção de grãos por conta de intempéries climáticas ocorridas pelo mundo afora nos últimos anos, e quem lembre do crescimento do mercado consumidor de países emergentes com grande densidade demográfica como China e Índia. E há também aqueles que, de forma oportunista, apontam os dedos ao Brasil, argumentando que a produção de biocombustíveis é o elemento principal desta crise. No enta nto, é pouco provável que seja obra exclusiva de um ou de outro fator, e tenta-se dimensionar o peso de cada um destes elementos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva novamente aproveitou a ocasião para afirmar a opinião do Brasil com soberania e altivez, demonstrando que a credibilidade e respeitabilidade que angariou como liderança mundial, através da sua participação em diferentes fóruns internacionais, não foi por acaso, sobretudo quando o assunto é o combate à fome e a miséria. E contestou veementemente as acusações contra a produção do etanol brasileiro. Para quem não teve a oportunidade de acompanhar, o presidente disse o seguinte: "um dos principais fatores da crise são as absurdas políticas protecionistas na agricultura dos países ricos". E fez questão de explicar a diferença entre o etanol produzido no Brasil a partir da cana-de-açúcar e o etanol americano produzido a partir do milho, já que o argumento em questão considera que há uma diminuição da produção de grãos ao mesmo tempo em que ocorre um aumento da área cultivada para a produção de etanol. "Não sou favorável a que se produza etanol a partir de alimentos, como no caso do milho e outros. Não acredito que alguém vá querer encher o tanque do seu carro de combustível, se para isso tiver que ficar de estômago vazio", afirmou Lula, lembrando ainda que o milho americano só é competitivo com a cana-de-açúcar brasileira por conta dos subsídios e barreiras tarifárias.
O Brasil detém tecnologia de ponta na produção do etanol a partir da cana-de-açúcar, que é o único biocombustível líquido competitivo, sem a necessidade de subsídios contínuos, como afirma o próprio texto-base da FAO. É lógico que a chegada desta nova tecnologia ao mercado mundial causa apreensão em alguns setores que terão de competir com ela, seja na questão econômica, seja na questão ambiental, e a indústria petrolífera certamente é um destes setores.
Mas quem são estes que nos apontaram os dedos? São aqueles que insistem em manter políticas protecionistas que prejudicam os países mais pobres e os consumidores do mundo inteiro. Aqueles que defendem o livre mercado, desde que não seja na política agrícola deles próprios, onde o que importa é a intervenção estatal. Aqueles que apostam mais em refrear a demanda em vez de aumentar a oferta de alimentos. Aqueles que temem perder espaço no mercado mundial com a produção do etanol brasileiro. Enfim, são aqueles que, "com os dedos sujos de óleo e carvão", como disse o presidente, querem nos dar lição sobre segurança alimentar e preservação da Amazônia.