Abrapa recebe representante da Apaece para imersão sobre qualidade do algodão
Apaece busca melhorias na qualidade do algodão mocó com apoio do CBRA
Foto: Canva
A busca por elevar o padrão de qualidade do algodão brasileiro e ampliar a produção em novas fronteiras levou a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) a receber, nesta semana, a diretora executiva da Associação dos Produtores de Algodão do Estado do Ceará (Apaece), uma das 11 associações estaduais filiadas à entidade, Francieli Silva, para uma imersão técnica no Centro Brasileiro de Referência em Análise de Algodão (CBRA).
Potencial produtivo do Algodão Mocó
Doutoranda em Fisiologia e Melhoramento Genético de Plantas pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Francieli desenvolve uma pesquisa voltada à qualidade da fibra e ao potencial produtivo do algodão mocó (Gossypium hirsutum L. var. marie-galante), espécie nativa do semiárido. A variedade, historicamente presente na região, voltou ao radar científico e produtivo por suas características de adaptação e pela possibilidade de apresentar mecanismos resistência ao bicudo-do-algodoeiro.
“Acreditamos que, após décadas de exposição ao bicudo, o algodão mocó possa ter desenvolvido mecanismos naturais de resistência, com mudanças genéticas e fisiológicas importantes para o setor”, explica Francieli.
O estudo envolve experimentos em diferentes ambientes, análise de densidade populacional e mapeamento genético, com o objetivo de identificar genes associados à resistência a pragas e à qualidade da fibra. Segundo a pesquisadora, o material também apresenta atributos de interesse para o mercado, como fibra extralonga e alta resistência.
Processo de avaliação da qualidade da fibra
A passagem pelo CBRA tem papel central nesse processo. No laboratório, referência nacional em classificação de algodão, Francieli acompanha de perto os protocolos de análise instrumental da fibra, etapa considerada estratégica para validar os resultados obtidos em campo.
“Minha vinda aqui tem como objetivo conhecer, na prática, como funciona o processo de avaliação da qualidade da fibra e como o saber científico contribui diretamente para as exigências do mercado”, afirma.
Além do caráter acadêmico, a visita está inserida em um projeto mais amplo de reestruturação da cotonicultura no Ceará. A retomada da cultura também carrega um importante componente simbólico e histórico. “O Ceará tem uma memória afetiva com o algodão”, afirma Francieli.
“O objetivo também é conhecer a estrutura laboratorial para apoiar a implantação de um laboratório no Ceará, voltado à qualidade. A gente quer retomar a cultura do algodão com foco em um produto diferenciado, com rastreabilidade e padrão elevado, inspirado em modelos internacionais”, diz.
A estratégia inclui o fortalecimento de sistemas de certificação, o uso de fardos individualizados e o desenvolvimento de uma identidade própria para o algodão cearense que já conta inclusive com marca registrada.
Algodão e o fortalecimento das cadeias produtivas locais
Outro eixo do projeto está na integração com iniciativas agroecológicas e cadeias produtivas locais. A produção envolve tanto variedades convencionais quanto algodões coloridos, com foco na geração de sementes certificadas e rastreáveis. Entre os materiais utilizados, destacam-se cultivares com maior rendimento de fibra e outras com potencial para produção de caroço, voltado à alimentação animal e à indústria.
O algodão também surge como peça estratégica para a retomada da produção de biodiesel no estado. A cultura deve se somar a oleaginosas como girassol e mamona na oferta de matéria-prima, ampliando as oportunidades econômicas no semiárido.