Batata silvestre pode mudar visão sobre origem da agricultura
A pesquisa analisou centenas de ferramentas de moagem
A pesquisa analisou centenas de ferramentas de moagem - Foto: Agrolink
Um estudo recente sugere que a história da agricultura no sudoeste da América do Norte pode ser mais antiga e complexa do que se imaginava. Pesquisadores analisaram vestígios microscópicos preservados em ferramentas de pedra e encontraram evidências de que uma batata silvestre nativa da região, conhecida como batata das Quatro Esquinas, já era coletada, processada e transportada por povos indígenas há mais de 10 mil anos. O resultado aponta para etapas iniciais de domesticação vegetal fora dos centros agrícolas tradicionalmente reconhecidos.
A pesquisa analisou centenas de ferramentas de moagem usadas no preparo de alimentos em sítios arqueológicos localizados dentro e fora da área de ocorrência natural da espécie Solanum jamesii. Grânulos de amido do tubérculo foram identificados em nove sítios, sendo que quatro apresentaram uso contínuo da planta ao longo de milênios. Os dados reforçam estudos genéticos anteriores que indicavam o transporte intencional da batata para além de seu habitat original, um passo considerado fundamental no processo de domesticação.
Os pesquisadores também conseguiram definir o chamado alcance antropogênico da espécie, resultado de antigas redes de troca na meseta do Colorado. Populações da planta foram estabelecidas em áreas como Escalante, Bears Ears e Mesa Verde, onde ainda hoje existem exemplares vivos próximos a sítios arqueológicos. Nessas áreas, a batata apresenta características que sugerem manipulação humana, como maior tolerância ao frio, dormência prolongada dos tubérculos e resistência à brotação.
Além do valor histórico, o estudo destaca a importância cultural e nutricional da planta. Comparada às batatas comuns, a espécie apresenta mais proteínas, calorias, minerais e fibras, o que a tornava um alimento estratégico para populações móveis. Entrevistas etnográficas mostraram que o conhecimento sobre o cultivo, preparo e uso ritual da batata ainda persiste entre comunidades indígenas, especialmente entre mulheres, apesar das dificuldades atuais de acesso às terras e aos recursos tradicionais.