Nova técnica propõe produção de frutos sem plantas
Um exemplo citado é a produção de algodão em biorreatores
Um exemplo citado é a produção de algodão em biorreatores - Foto: Canva
A possibilidade de produzir frutos sem a formação completa de uma planta inteira desponta como uma nova fronteira da agricultura celular e provoca debates sobre eficiência produtiva, impactos ambientais e organização econômica do setor. O tema é analisado por Leandro Simões Azevedo Gonçalves, professor da Universidade Estadual de Londrina, ao discutir o conceito de “fruto cultivado” e suas implicações científicas e sociais.
A proposta parte da ideia de que frutos botânicos podem ser gerados quase sem órgãos vegetativos, a partir de tecidos cultivados em laboratório. Experimentos desse tipo não são recentes e já vinham sendo observados desde a década de 1940, quando flores destacadas conseguiam se desenvolver em frutos em meios nutritivos. Hoje, o avanço tecnológico permite pensar em sistemas controlados capazes de induzir floração, garantir o desenvolvimento do fruto e conduzir seu crescimento até a maturação, ainda que persistam desafios técnicos relevantes ao longo do processo.
Entre os principais pontos em aberto estão os efeitos da floração artificial sobre a qualidade final do fruto, a eficiência da polinização em ambiente in vitro, a real necessidade de luz e os limites de tamanho e enchimento. Apesar disso, o modelo apresenta ganhos ambientais importantes, como a eliminação do uso direto do solo, a redução do escorrimento de nutrientes e pesticidas e a possibilidade de produção contínua próxima aos centros urbanos, com menor consumo de água e insumos.
A discussão extrapola os alimentos e alcança as fibras. Um exemplo citado é a produção de algodão em biorreatores a partir de células de algodoeiro, demonstrando que materiais agrícolas podem ser obtidos sem lavoura em escala industrial. Ao mesmo tempo, o debate levanta riscos de concentração de poder, exclusão de agricultores e lacunas regulatórias. Assim, os frutos cultivados se colocam como um teste decisivo sobre como a biotecnologia será incorporada ao futuro da produção agrícola.